A estratégia completa: quem é a especialista, o DNA da marca, a concorrência, as personas, a jornada, o funil, o tom de voz e as linhas de conteúdo que orientam a produção dos próximos 12 meses.
Em 6 a 12 meses, transformar a Dra. Gianny na referência digital brasileira de sexualidade do adolescente com autoridade médica, posição que hoje não existe no mercado e a partir daí construir uma operação de infoprodutos com renda média de R$ 15.000/mês.
Posicionar a Dra. como voz médica de referência em sexualidade do adolescente. O território está aberto: Leiliane Rocha é psicóloga e foca infância; Cinthia Zanuni ocupa o lado moralista-cristão que a Dra. quer confrontar.
Validar o tema do low ticket a partir do desempenho dos conteúdos da estratégia, antes de construir no escuro.
A Dra. já tem 4.500+ leads frios no Hotmart e gerou 6 vendas do curso "Segredos da Sexualidade na Adolescência" sem captação ativa. É o ativo mais barato disponível para os primeiros testes.
Reformular a bio e otimizar o link na bio que ela já tem (consultas, produtos) para vender autoridade médica, médica de adolescentes, CRM, mestre em sexualidade juvenil — e a oferta corrente.
Três coisas que não existem juntas em nenhum outro expert do nicho: credencial médica institucional, vivência pessoal processada e uma tese ideológica clara com lastro técnico.
Hebiatra (UNIFESP), mestre em Ciências da Saúde com ênfase em sexualidade juvenil, capítulo "Exercício da Sexualidade" no Tratado de Pediatria da SBP, ex-presidente do Departamento de Adolescência da SBP-SC, professora universitária. CRM/SC 7372, RQE 132671.
Experiências pessoais de abuso superadas, narradas com a calma de quem trata, não de quem milita. Ativo raro: quem sofre abuso costuma silenciar, e quem fala costuma militar, ela fala como especialista.
Orientar protege mais que proibir. Erotismo não é pornografia. A sexualidade se constrói no afeto antes do sexo. Com lastro científico e de consultório, não de opinião.
A identidade estratégica da marca: o posicionamento único, a proposta de valor, a maior transformação, a Big Idea e as ideias que abastecem o calendário.
Orientar protege mais do que proibir.
É uma tese contraintuitiva: a mãe proíbe para proteger, mas a proibição empurra o adolescente para o escondido e custa a ela o canal de conversa e é o vínculo aberto que protege, não o controle.
Dra. Gianny Cesconetto é médica referência em sexualidade do adolescente e guia mães na (re)construção da relação com os filhos pela orientação, não pela proibição.
Entender que proibir não desliga o desejo, desliga o canal de diálogo: sem espaço para a orientação, a vontade de viver a experiência vence o medo da proibição, e o filho passa a viver escondido.
Mães que querem melhorar a relação com o filho adolescente e desconfiam dos dois extremos: a proibição que cala e a liberdade sem critério.
É a única que junta credencial profissional e vivencial.
Proibir não faz o filho parar, faz fazer escondido e a mãe perde o canal de informação.
Começa no afeto, no toque, no namoro de mão dada.
Ataque frontal e tecnicamente embasado ao discurso dominante do nicho religioso.
Na maioria dos casos de violência sexual, o agressor é familiar ou pessoa próxima.
| Canal | Status | Alcance | Papel no funil |
|---|---|---|---|
| Instagram @dragioficial | Ativo | 132K · 1.668 posts | Descoberta + Nutrição |
| E-mail base Hotmart | Dormente | 4.500 leads frios | Conversão + Retenção |
| YouTube | Dormente | acervo (No Break) | Reservatório de autoridade |
| Facebook · Google Ads | Infra / tentado | — | Sem papel ativo |
Foco em validação da linha editorial explosiva.
Mineração de 7 perfis (30 a 100 posts cada). Típico = mediana (resistente a um viral isolado); pico = melhor post. Num reel viral o pico passa de 100% porque o alcance supera a base.
| Perfil | Seguidores | Típico | Pico | Virais |
|---|---|---|---|---|
| Gianny @dragioficial | 132K | 0,02% | 0,77% | 0 |
| Ivana Jauregui | 5,4M | 0,80% | 4,7% | 0 |
| Leiliane Rocha | 1,33M | 0,11% | 2,0% | 0 |
| Paula Campozan | 1,08M | 0,32% | 4,7% | 0 |
| Sheylli | 599K | 0,31% | 45% | 4 |
| Cinthia Zanuni | 410K | 0,31% | 18% | 3 |
| Thaís Suassuna médica · direta | 22,7K | 0,48% | 239% | 1 |
@dra.thaissuassuna · 22,7K · Instagram (react, caso, saúde mental, Geração Z).
Já faz react a notícia e caso clínico em 1ª pessoa, o post de maior engajamento dela (239%). Ocupa o rótulo "médica de adolescentes".
A única médica de adolescentes do mapa; viraliza com caso e react; cresce rápido.
Não cravou tese sobre sexualidade; base pequena.
@paulacampozandoria · 1,08M · médica psiquiatra, maternidade.
Discurso de medo e pureza ("3 frases que podem fazer sua filha virar prostituta virtual", "tomar banho junto faz mal"). Monetiza o medo.
Credencial médica + 1M de base; ganchos de terror que engajam.
Tese oposta e menos defensável; não fala em orientar; vulnerável a contra-narrativa médica.
@cinthiazanuni · 410K · neuropsicoterapeuta cristã (método NP4).
Neurociência + fé; "pornografia é tudo que sexualiza"; vigiar e pureza. A inimiga ideológica direta.
Combina ciência e Bíblia; método nomeado; viraliza com medo.
Mistura erotismo e pornografia; proíbe; "neurocientista" sem PhD.
@leilianerochapsicologa · 1,33M · psicóloga (ESEPAS).
Proteção infantil + abuso; operação madura (congresso, pós, certificação); tom de causa.
Maior do nicho; método nomeado; CTA por palavra-chave; valida a monetização.
Foca infância (0-12), não adolescência; não fala de sexualidade com tese; tom militante.
@ivana__jauregui · 5,4M no Instagram (+ TikTok 815K, YouTube 112K). Educação parental e maternidade "consciente".
Bandeira da disciplina e da obediência — "fale 1 vez e seu filho te obedece". Crescimento explosivo (~1,6M em 12 meses). É o oposto ideológico da Gianny no eixo controle × vínculo.
Maior alcance do grupo; promessa concreta e replicável; operação multiplataforma madura.
Tese de obediência e controle, contrária a "orientar protege mais que proibir"; sem credencial médica nem foco em sexualidade. Alvo natural de contraponto.
@sheylli · 599K · Instagram (react e crítica, combate à violência sexual e online, oratória).
Formato react/denúncia com pensamento crítico; bandeira da violência sexual e digital. Tangencia o tema de proteção da Gianny e disputa a mãe pelo viral.
Domina o react e a crítica que viralizam — 4 virais no mapa, pico de 45%; causa engajada e fiel.
Professora e comunicadora, não médica; foco em denúncia/violência e oratória, não em sexualidade do adolescente com lastro clínico; tom mais militante.
@gabrielafpina · Instagram (Terapeuta, parentalidade, emoções e desenvolvimento pessoal).
Conteúdo de parentalidade e emoções infantis, com incursões em proteção e abuso em formato viral e tom acessível. Fala à mãe que quer "criar com afeto", sem credencial clínica.
Alta produção viral; linguagem emocional que conecta; toca temas sensíveis de proteção que a Gianny também ocupa.
Sem credencial médica; foco em infância e emoção, não em sexualidade do adolescente com tese; profundidade técnica rasa.
A leitura interna e externa do projeto, base para as decisões dos próximos meses.
Três retratos da mãe de adolescente: não demografia, mas a linguagem, os medos e as contradições reais, ancorados em voz coletada de mães. O fio que une as três: a maior dificuldade não é o filho, é a mãe rever o próprio impulso de proibir.
Perfil: 38–50 anos, mãe de adolescente 12–17. Criada ouvindo que "isso não se fala". Controla pelo viés do medo: lê conversas, monitora as redes. Pra ela, controle é amor; afrouxar é negligência. Consciência: acha que o problema é a rebeldia do filho, não o próprio controle.
Diz: "acabei surtando, mas me sinto culpada", "até onde posso interferir?". Pensa: "se eu afrouxar, acontece o pior". Sente: medo que vira controle, culpa, impotência. Faz: tira o celular, lê o privado, proíbe o namoro.
"Tirei a porta do quarto, vendi os celulares, e mesmo assim eles não falam comigo." Medo secreto: "se eu soltar, vou perder ela, e a culpa vai ser minha."
Hook de react/polêmica que mostra que proibir afasta, com dado. Objeção a desarmar: "orientar não é afrouxar: é a forma que realmente protege."
Perfil: 35–48 anos, criada no silêncio e na vergonha, nunca recebeu orientação. Quer fazer diferente da própria mãe, mas falta repertório: quando o filho pergunta, ela trava ou empurra pro pai. Consciência: a mais avançada, já sabe que precisa falar, só não sabe COMO. É a mais alcançável.
Diz: "ela me perguntou e eu não soube responder". Pensa: "não quero repetir o silêncio da minha mãe, mas não tenho as palavras". Sente: vergonha (dela), insegurança, culpa antecipada. Faz: delega ("conversa com o teu pai") ou adia.
"Falei hoje sobre sexo com meu filho de 12… agi mal, ou tinha que ter tido essa conversa antes?" Medo secreto: "se eu não souber responder, ela aprende errado na internet."
Hook "médica explica" + o passo a passo. Objeção a desarmar: "falar não estimula, a ciência mostra que adia".
Perfil: 35–50 anos, evangélica ou católica praticante, valores de pureza e abstinência. Vê a filha namorando, questionando — e fica dividida entre a doutrina e a realidade. Consciência: sabe que algo não vai bem, mas a solução da fé (proibir, calar, rezar) é justamente a que falha.
Diz: "namoro na adolescência é pecado?". Pensa: "será que a forma como me ensinaram está machucando ela?". Sente: medo do pecado disputando com o amor; culpa dupla. Faz: leva pra igreja, reza, controla, repete "se você perder a virgindade…".
"Crescemos numa doutrina rígida… eu preferia não ter de contar a eles." Medo secreto: "e se a minha fé estiver empurrando ela pra longe de Deus e de mim?"
Hook de react que separa fé de castração: atacando a ideia de que calar protege, nunca a fé dela. ⚠️ A mais delicada (risco de polarização).
Antes de propor produto, validar interesse. Nesta fase, o funil é um instrumento de validação.
O foco vai ser a produção de conteúdo topo de funil para identificar a melhor narrativa
Após compreender qual narrativa gera mais interesse, desenvolver um low ticket com o zoom in nessa narrativa.
O produto principal vai derivar a partir da validação da hipótese do low ticket. Entregue ao vivo primeiro (custo baixo).
O tom estável é o de uma médica experiente orientando. Tem técnica, mas não está em modo aula. Tem afeto, mas não em modo amiga.
Polêmica controlada de topo de funil. React a viral, posicionamento contra a crença comum.
Autoridade e nutrição: anedota, categoria técnica e chamado prático. O registro de meio de funil.
Vulnerabilidade alta a própria história. Nunca como gancho de venda; sempre com aprendizado técnico.
Polêmica abre, sábia explica, acolhimento fecha. Abre com a quebra de um senso comum, insere a categoria técnica, apresenta a tese e fecha com um chamado prático que a mãe pode fazer hoje, ou com acolhimento.
As linhas editoriais por território: os temas que a Dra. cobre, cada um com seus recortes. Os formatos no fim são as formas de entregar qualquer um deles.
Identificação. A lente, presente em toda peça: proibir não protege, empurra pro escondido; quem protege é o vínculo aberto, e a primeira a ser orientada é a mãe. Crença (a sexualidade se constrói no afeto) · crítica (o medo e a castração religiosa) · defesa (orientar > proibir). Divide e filtra: a mãe se reconhece e fica, ou se ofende e sai.
Atração. A linha explosiva é o assunto que estoura pra não-seguidor não o formato. Os temas que mais furam a bolha são os que a mãe compartilha por medo: o que a filha vê no celular e a pornografia precoce (erotismo × pornografia), a proteção contra abuso, o namoro na adolescência — sempre lidos pela tese "orientar protege". O react é a forma de entregá-los (ver Formato Adesivo). Mede-se por alcance de não-seguidor: hoje a Dra. é piso sem teto (0,02% típico, zero viral).
Memória. 1 principal + 1 secundário + 1 em teste. Principal: react médico, com a assinatura "olha esse número e me diz…" (médica, não jornalista). Secundário: contraste em duas colunas / "médica explica". Em teste: caso em 1ª pessoa (CRM-safe). Modelar o formato viral do nicho, trazer a posição dela.
Retenção. Do banco de 108 áudios e da história dela: a série-jornada "Resolva você antes" (a mãe cuidando da própria sexualidade — looping sempre aberto) e "O cérebro do adolescente". A narrativa desemboca no desafio de 10 dias. História de vida nunca como gancho de venda.
Consistência. Martela a Big Idea pelos vários territórios temáticos, sem repetir a forma. Proporção 36 Bisturi / 18 Sala / 6 História — os 60% de topo são calibrados ao estágio (sair do piso). Os 90 dias de validação são a fase de estabilizar antes de variar.
Resultado. Nenhuma peça é solta: cada linha tem um papel e uma métrica que o prova. Como o perfil está no piso e o produto é hipótese, o mix pesa alcance; a conversão entra leve (desafio grátis + reativar os 4.500 leads), não venda de topo.
A matéria-prima da temperatura "História de vida": 205 perguntas respondidas em 108 áudios, transcritas e organizadas em 9 blocos temáticos. É daqui que saem os ganchos e as histórias reais da Dra. para o conteúdo.
Bloco 1. Origens, infância e adolescência. Eu nasci em São Miguel do Oeste, no interior de Santa Catarina, e com seis meses eu fui morar em Criciúma, onde eu vivi a minha infância toda. Então, eu conheci a minha cidade de nascimento mesmo apenas quando eu tinha 15 anos, que eu fui visitar.
Então, considero que eu cresci na cidade de Criciúma, a cidade do carvão, e foi lá onde eu vivi toda a minha infância. As duas primeiras lembranças que me vêm na cabeça da minha infância, uma é dolorosa, que é o abuso sexual aos sete anos, que fez um rompimento com a minha família. Minha mãe me deixava na casa da minha nona e a gente gostava muito de ficar na casa da nona.
A nona era a querida, que é a mãe do meu pai, e era muito gostoso ficar lá brincando, tenho boas recordações e tenho lembrança do abuso também como algo traumático no dia em que foi descoberto, porque eu não entendi nada do que estava acontecendo, fiquei achando que eu tinha feito algo errado, e essa ruptura com a família da minha nona é que mais me doeu, porque a gente parou de ir lá, de visitar, de frequentar a casa dela. Minha mãe ficou muito brava, eu fui levada no médico. Então, eu tenho uma lembrança de que quando a gente está tendo algo bom, positivo, gostoso, de repente algo ruim vem, acontece e acaba com tudo.
Essa marca que ficou e uma lembrança muito forte. Mas eu também tenho lembranças muito gostosas, muito boas. Minha infância foi positiva, foi boa.
Eu morava do lado de uma escola, a escola São Bento, em Criciúma, que era junto com uma igreja e a minha casa era esquina com essa escola. O muro da minha casa dava para essa escola e eu via as crianças brincando no parque. E aí eu sempre ia lá, porque tinha uma grande proximidade com as freiras, era um colégio religioso e o meu pai também é muito religioso.
E eu conhecia as irmãs que cuidavam da escola, às vezes ficava lá tomando sopa com elas, convivia com elas, era um ambiente, um clima gostoso, me sentia amada lá. E eu gostava de ensinar as crianças, eu pegava cenoura, azeitona, ovo de codorna e eu contava histórias construindo bonequinho com esses alimentos para as crianças. Gostava muito de interagir, de ensinar, de estar aí nesse meio, junto com as crianças, interagindo.
Essas são lembranças muito positivas que me vêm na cabeça. De brincar de casinha na garagem da minha casa com a minha irmã, a gente fazia de conta que era uma família, o pai saía para trabalhar, a gente fazia comidinha com grama, com pedrinhas. Foi uma infância bem divertida, eu gostava de ser criança.
Bloco 1. Como era a minha casa? Minha casa era uma casa muito legal, porque ela tinha quintal em volta dela toda, era uma casa de um andar só. O muro era de balaustres, eu achava o máximo, porque eu sentia como se eu estivesse em um castelo, e ela tinha grama, né, gramado em toda a volta dela, então a gente brincava de fazer corrida, eu gostava de correr nesse quintal, eu e minha irmã a gente fazia, saía de um ponto, né, uma de um lado, outra do outro da casa e quem chegasse primeiro, então era bem divertido. Eu não gostava muito quando meu pai fazia a gente cortar a grama, porque eu odiava ser picada pelas formigas, mas era divertido, a gente fazia uma atividade em família juntos, né, em família entre aspas, porque a minha mãe não ajudava muito, ela mais mandava, ela era comandante, assim, faz isso, faz aquilo, mas meu pai é que cortava a grama e eu e minha irmã a gente rastelava, botava no saco, né, recolhia, enfim, então essa era a minha casa, eu lembro da gente pintando a casa, né, a gente não tinha muito dinheiro, assim, era uma classe média, então eu lembro que nessa época a gente mesmo, meus tios, meu pai e a gente ajudou a pintar toda a casa, foi muito divertido, essa era a minha casa de infância.
Ela tinha um corredor grande dentro dela e eu gostava de sair correndo e fazer espacato no ar e uma dessas vezes eu calculei mal e dei com a minha perna na parede, doeu pra caramba, mas era muito divertido, eu gostava de brincar, de escorregar nesse corredor enorme e era uma casa simples, né, tinha o quarto dos meus pais, o quarto meu e da minha irmã e o outro quarto do meu irmão, depois tinha um ambiente com escritório, que a gente também ajudou a construir esse armário pro escritório, meu pai tinha que fazer trabalho de marcenaria também, né, na época que os pais construíam as coisas, não tinha tanta facilidade em comprar, assim, e tinha uma sala de TV e banheiro, lavabo, o banheiro era comum pra todos, não tinha suítes e a cozinha, essa era a minha casa. Acho que eu já respondi o que mais me fazia feliz naquela época, era esses momentos que a gente tinha de brincar em família, a gente convivia muito com os primos, meu pai final de semana sempre fazia churrasco e a gente comia em família, minha mãe sempre foi muito rude, muito mania de limpeza, mas dura assim, né, mas era um clima gostoso fazer esses momentos de refeição em família, tá com os primos, sair pra tomar sorvete na sorveteria, meu pai botava todo mundo no carro e a gente saía com os primos. Eu gostava muito desse momento e eu gostava muito de ler, adorava ler livrinhos de histórias que tivessem até o meu aniversário, eu pedi pra ler, ganhar uma coleção de livros que tivesse poucas fotos, poucas figuras, eu gostava dos livros pra fazer leitura, era uma coisa que me divertia muito, porque a minha mãe também não deixava a gente sair muito de casa, assim, sair pra casa de amigas, então a gente tinha que ficar mais em casa protegida, não gostava que a gente se sujasse, né, então eu não tenho registro de brincar com lama, com lodo, minha areia, pintura, nada disso, mas eu gostava muito de leitura.
Meus pais, dentro de casa, eram amorosos entre eles, assim, viviam, minha mãe e meu pai se acariciavam, se beijavam quando eu estava cozinhando, por exemplo, eu via um grande afeto entre eles. Mas, minha mãe era muito ciumenta, e ela tinha crises de ciúme, então, e ela não trabalhava, ela não estudou, ela só estudou até a quarta série, ela se sentia, eu acho, menos que o meu pai, né, foi uma coisa muito machista, ela trabalhava em casa, tinha empregada doméstica, tal, mas que ajudava, mas ela tinha essas crises quando meu pai saía, viajava a trabalho, teve uma época que ele viajava bastante, eu lembro, e essa época, quando toda a vida que ele chegava de viagem era uma briga de ciúme dela, então, com gritarias, né, ela era muito brava, assim, tinha esses acessos de ciúme, e a gente via isso, né, presenciava essas brigas, e era algo que me deixava aterrorizada, assim. Mas, tirando esses episódios, né, quando eles estavam os dois juntos, no clima bom, cozinhando, alguma coisa assim, eles eram amorosos um com o outro, e eu sempre vi esse afeto deles.
Já meus avós, tanto, meu avô eu não conheci, quando eu tinha dois anos de idade, ele já, meu avô, por parte de mãe, já tinha falecido, então eu só ouvi falar que ele gostava muito de mim, que ele me chamava de Joaninha, que eu era uma neta preferida, tal. Mas, a minha avó, por parte de mãe, ela era rabugenta, a gente achava ela rabugenta, assim, não era aquela avó querida, né, mas a gente sempre visitava ela, e ela morava numa casa, então minha mãe ficava conversando com ela, e a minha irmã ficava brincando no quintal, então não tem um registro, assim, muito bom, só que ela tinha uns olhos azuis, assim, lindos, né, muito, chamava muito a atenção, mas ela não era uma avó que eu tinha proximidade. Já a minha nona e o meu nono, que são os avós por parte de pais, era onde a gente gostava mais de ir, minha nona era cozinheira, cozinhava bastante, fazia bastante coisa gostosa, meu avô, meu nono, né, tinha quintal, tinha horta, a gente mexia nos alfaces, nas plantas, junto com ele, sempre tinham meus primos lá também, então, mas na minha formação, o registro é meio de visita só, assim, de visitar, né, não na minha educação, eles não eram pessoas que estavam muito presentes.
Bloco 1, eu tinha proximidade tanto com a família materna quanto paterna, porque eu tinha 10 tios pelo lado da mãe, 10 tios pelo lado do pai, e muitos primos. E a gente vivia bastante assim com os primos, então eu tinha pelo menos duas tias, eu tinha uma tia que tinha 5 filhos e essas filhas eram 3 mulheres e 2 homens, aí eu convivia muito com essas 3 primas maternas e do lado paterno tinha uma tia que morava do lado da casa da minha nona, tinham dois primos e a gente também convia bastante com esses dois primos do lado paterno. Então a gente, eu considero assim que a proximidade maior era com a família materna, mas eu tinha com as duas.
E assim, com a paterna a gente tinha mais a questão religiosa, de ir pra igreja sempre, de fazer novenas, ir na casa das pessoas, rezar, e na família materna era um pouco mais de fofoca, sabe? Eram pessoas que eu via mais as minhas tias, minha mãe, com a tia, com as primas, meio fofocando, falando das pessoas, era algo assim, mas as crianças, eu era criança, a gente ficava brincando. Se eu tenho uma memória marcante envolvendo meus avós, eu tenho marcante na infância, eu não tenho muito não, só tenho mais na adolescência, que é a morte da minha avó, eu ainda era adolescente, da minha nona, e ela, das duas na verdade, a minha nona teve um AVC e depois um tromboembolismo pulmonar, e ver ela acamada foi muito triste pra mim, eu lembro dessa recordação, eu não pude ir no enterro dela, porque eu tava já no começo fazendo provas, e a professora não me deixou ir, enfim, foi uma situação ruim, e não sei direito como é que aconteceu, mas eu não pude ir, não tenho registro de ver ela sendo enterrada. E já a minha avó materna, ela morreu no dia do Natal, e eu tinha insistido com a minha mãe que eu queria ver o meu namorado na época, e eu tava lá com meus 13, 14 anos, 14 já na época, e a gente ia na praia do Rincão, que era uns 30 minutos de Criciúma, e nessa volta, minha avó tinha dito que queria falar com a minha mãe nesse dia e tal, e a gente ia visitar, porque era Natal, só que quando a gente chegou, ela já tinha falecido, já tinha morrido, e minha mãe não conseguiu falar com ela, e durante muito tempo ela me culpou por isso, assim, isso foi algo bem traumático pra mim também, me sentir culpada por a minha mãe não conseguir se despedir da mãe dela, porque ela teve um problema no coração e tinha recebido alta pra acabar falecendo em casa mesmo, mas aconteceu essa situação que eu enchi a paciência pra ver o meu namorado, fui insistente, persistente, que eu sou determinada, e acabou que ela não deu tempo dela ver a minha avó.
Bloco 1, valores que eu carrego da minha família. A principal eu acho que é a honestidade, ser sincero, transparente, falar a verdade. Acho que é algo que construiu a minha história, assim.
Meu pai sempre foi muito correto, era uma criança de mentir, não sabia mentir. Não sei hoje, até hoje, lidar com pessoas falsas, tenho dificuldade de reconhecer isso. Então, para mim, a honestidade é um valor bem importante, ser verdadeiro.
E eu acho que outro valor que eu tenho é a paciência, paciência em uma virtude de esperar. Meu pai sempre foi muito paciente, acredito que esses valores vêm muito dele. E, às vezes, acho que sou até paciente demais, perco um pouco o limiar entre ser paciente ou ser muito boazinha demais, ou ingênua, e as pessoas se aproveitarem.
Mas eu acredito que é uma virtude, é um valor que eu preservo, a paciência. A gente ter o tempo, ter tempo para cada coisa na vida, né? Acho que isso é importante, assim. E a dinâmica na casa, a dinâmica familiar, eu vi, hoje eu vejo, minha mãe era muito mandona, mas meu pai que tinha o poder, porque era ele que trabalhava e tinha o dinheiro.
Então, eu via, assim, o comportamento era da minha mãe ser a mandona, a chefe, faz isso, faz aquilo, limpa aqui, tem que ser correto, ordem para estudar. Mas quem mandava mesmo, porque eu vejo a minha mãe mais submissa, era o meu pai, porque ele controlava as coisas com o dinheiro, né? Então, ele que dava as coisas, ele que proporcionava, providenciava. Então, sempre a última palavra era a dele.
Sempre uma pessoa muito teimosa, muito teimoso, né? Tudo as coisas do jeito dele. Então, minha mãe tinha que brigar, bater boca com ele, para conseguir fazer coisas diferentes do que ele não acreditava, por exemplo. Inclusive, para conseguir dinheiro, né? Então, eu acho que essa dinâmica entre os dois era o que era mais forte, assim.
Meu pai detinha o poder, minha mãe esbravejava, mas era submissa. E a gente obedecia, a gente obedecia, porque senão a gente apanhava, né? Apanhava mesmo, de chinelo, de cinta, não podia muito contrariar meus pais, eram autoritários.
Bloco 1, pergunta 11. Sua família conversava sobre emoções e sentimentos? Não, minha família não conversava muito, não. Na minha época, os adultos meio que mandavam e as crianças ficavam meio que de lado, né? Então, eu aceitava as crises de ciúme, braveza da minha mãe.
Era meio, nós que mandamos, vocês obedecem. Então, não tinha muita conversa sobre emoções e sentimentos. E a 12, corpo, sobre corpo, adolescência e sexualidade.
Esses assuntos existiam dentro de casa? De forma ameaçadora, sim. Tipo, olha, não pode se masturbar porque é pecado, você vai ficar com a mão amarela. Era meio, assim, na ameaça e algo proibido.
Não era algo bonito. Não, minha mãe ainda falava se era muito beijoqueira, chamava de vagabunda. Termos, assim, de julgamento mesmo, né? Então, não tinha esse tipo de conversa dentro de casa de uma forma positiva, não.
Era sempre negativa.
Bloco 1. Eu era uma criança mais tímida e observadora do que expansiva. Como você se descreveria na infância? Eu era uma criança super comportada, muito bonitinha, todos gostavam de me acariciar, elogiavam. Era boazinha, não enfrentava ninguém, gostava muito de cuidar das crianças menores que eu.
Era comportada, observadora e tímida.
Bloco 1, alguma história engraçada da sua infância que a família conta até hoje? Acho que eu tenho uma história bastante engraçada, que foi de... A primeira vez que eu fui subir em alguma coisa, nunca tinha subido numa árvore, nada. Eu fui inventar de subir numa garagem do estacionamento que meu tio tinha, junto com a minha prima e a minha irmã. E eram várias madeiras apoiadas num muro alto, e a gente escalou essas madeiras, que estavam todas despregadas, até conseguir chegar no alto do teto do estacionamento.
E não eram telhas, eram aquelas brasilites, e a gente saiu a correr lá em cima, eu seguindo a minha prima, só que ela era muito mais leve que eu, e eu ia seguindo os passos dela, correndo, a gente estava correndo em cima do telhado. E óbvio que o telhado quebrou e eu caí, que eu pisei num lugar errado, né? E fui direto com a cara no chão, cortei meu queixo, quebrei dente, fui parar na emergência. Minha mãe e meu pai estavam no supermercado e eu estava na casa da minha tia, então foi assim um susto, né? E eu morri de medo, o meu maior medo foi quando eu vi que tinha sangue no meu queixo, que eu botei a mão e eu saí correndo falando, a minha mãe vai me matar, a minha mãe vai me matar.
E aí, essa minha reação do medo da minha mãe é que fica na história até hoje, né? De quando a minha mãe era brava e eu não estava nem apavorada com o queixo cortado, eu estava com mais medo de apanhar dela do que outra coisa. Então, essa história ficou. E quais brincadeiras marcaram a minha infância? Ah, eu gostava de fazer corrida, taco, brincar de taco, vôlei, coisas que... O vôlei era mais na adolescência, não era como criança, mas como eu já falei, brincar de casinha na garagem com a minha irmã, andar de bicicleta, eu ganhei uma bicicleta aos 10 anos e eu adorava andar de bicicleta, era mais isso.
E eu adorava ir pra praia, no mar também, né? Eu não sabia nadar, mas eu adorava brincar na areia da praia, ficar na praia. Então, na infância, as minhas maiores brincadeiras eram essas.
Bloco 1, como era sua relação com a escola? Eu era considerada CDF, estudiosa, só tirava nota 8, 9, 10. Eu me preocupava muito, não podia tirar nota ruim, que eu ficava mal, era perfeccionista. Eu estudei no colégio São Bento, em Criciúma, a vida toda não saí desse colégio, mesmo quando estava sem professor, teve uma época difícil, principalmente no ensino médio, mas sempre foi no colégio São Bento.
Algum professor ou professora que tenha marcado a minha vida? Sim, quando eu era pequena, eu tive a irmã Lorena, foi minha primeira professora, quando eu tinha sete anos de idade, era uma freira e ela se afeiçou muito a mim e eu reencontrei ela quando eu tinha quarenta anos e ela estava fazendo quarenta anos da congregação dela de freira. Então, ela foi uma mulher que me inspirou muito, até que na minha adolescência eu pensei em ser freira e ir para o convento, então acho que ela marcou muito a minha vida. Professor, eu não me lembro muito, não, de nenhum professor que tenha.
Eu lembro que eu tive uma professora no ensino médio de português, que eu gostava muito também e ela me ensinava os verbos, conjugação dos verbos, mas sempre foi por achar que era muito inteligente, uma mulher diferente, ela se vestia de uma forma diferente do comum, ela era uma mulher muito feminina, cuidava muito do visual dela, isso me chamava atenção e eu achava ela um exemplo de mulher.
Bloco 1. Você era boa aluna? Em quais matérias se destacava? Eu era boa aluna, sim, mas eu era boa aluna porque eu me esforçava bastante, era bastante estudiosa, eu não tinha facilidade em aprender. Eu dedicava muito tempo estudando. Matérias que eu me destacava era no português mesmo.
Redação, português, porque sempre fui ruim nas exatas, conto nos dedos até hoje. Como era a sua relação com os amigos naquela época? Eu fazia amizade fácil, assim, eu tinha um caráter um pouco de liderança, apesar de ser tímida, mas eu fui me desenvolvendo. Eu gostava muito de dar as minhas opiniões, era muito crítica, assim.
Então, eu conseguia influenciar as pessoas, sempre consegui influenciar as pessoas nas decisões, nos trabalhos em grupo, assim. E eu me sentia pertencendo a um grupo, a um grupo de quatro amigas. Eu era... éramos em quatro, assim, mais outras três amigas, né? Não era, assim, de muitas amizades, não.
Mas eu me sentia pertencendo a esse grupo, eu não me sentia diferente dos outros, não. Eu tinha um pouco de baixa autoestima por causa do meu nariz, que eu tinha um nariz grande e me sentia feia. Então, por essa autoestima, eu era mais reservada, assim, achava que os meninos não olhavam pra mim, que eu não era interessante.
Mas, pertencente ao grupo, eu me sentia assim.
Bloco 1, como foi sua entrada na adolescência? Minha entrada na adolescência foi bastante conturbada, porque com 13 para 14 anos eu comecei a querer namorar, tinha um menino que gostava de mim, eu nem gostava muito dele, mas ele foi muito insistente e aí a gente começou a se relacionar, minha mãe não queria, aí teve muitas brigas, que ela dizia que não podia, no aniversário de 13 anos para 14, meus amigos fizeram uma festa surpresa na garagem de casa, e minha mãe acendeu a luz bem na hora que a gente estava se beijando na boca, e aí, depois da festa, ela brigou um monte comigo, fez um escândalo, me proibiu de namorar, me proibiu de sair com as amigas, e aí eu não podia sair para mais nada, e aí eu resolvi que eu não queria mais namorar nada, porque eu não queria era ficar em casa, e aí fui falar para ele, aí nós ficamos tristes, mas eu não podia mais nem sair com as minhas amigas, e fazer trabalho na casa de amigas, nada disso, então foi uma entrada bem complicada, vamos dizer assim, e o que mais mudou nesse período para mim fisicamente foi o meu nariz, que ficou muito grande e eu achei que eu fiquei mais feia, eu não me achava bonita, e somente aos 17 anos que eu consegui fazer a cirurgia plástica, e mesmo assim ele teve um erro na cirurgia, ficou com retração, então ele ficou feio para sempre, mas hoje eu não me aceito do jeito que ele é e não me incomodo mais, mas a adolescência foi bem complicada, mas ficou melhor do que era, e eu gostei, a minha autoestima melhorou depois da cirurgia plástica, e a parte emocional foi bastante complicada, porque foi quando eu comecei a enfrentar meus pais, até então eu ficava calada, obedecia, mas na adolescência foi bastante conturbada de muitas brigas, porque eu não me calava mais, eu contestava, mas por que eu não posso ir no cinema, por que eu não posso fazer tal coisa, e a minha mãe sempre foi muito de responder como criança, não pode porque eu não quero e acabou, e eu não aceitava, e o que me salvava era muito a religião, eu ia para a igreja, como eu falei, então teve uma época do ensino médio que eu ia à missa todos os dias de manhã cedinho, seis horas antes de ir para a escola, era só meia horinha, não tinha aquela parte do padre, e eu gostava do ritual, e era onde eu encontrava a minha paz, rezando, então era um lugar silencioso, onde eu pedia muita paciência, eu lembro que eu pedia muita paciência para aguentar os ataques de braveza da minha mãe, e as brigas, e as discussões, então eu vivi a minha própria adolescência bastante conturbada, mas em casa acredito que eu comecei a namorar cedo, porque daí eu podia sair, era permitido que eu saísse, em grupos de amigos que tinham namorado também, mas eu não fui, não sei o que é sair para a balada, para me divertir, chegar tarde, não chegava tarde, era uma adolescência bem reservada, com o namorado dentro de casa, aos olhos do meu pai e da minha mãe, e eu então fui uma adolescente tranquila, bastante tranquila, muito tranquila, mais do que eu gostaria.
Bloco 1, quais eram meus sonhos naquela fase? Eu queria muito ser médica, eu gostava muito de cuidar das pessoas, desde de criancinha eu ficava cuidando das crianças pequenininhas, mas eu tinha um exemplo que a minha avó era parteira, foi parteira. Minha mãe queria ser enfermeira e eu tinha primas mais velhas que tentavam fazer o vestibular para medicina, não conseguiram e foram ser enfermeiras, então era algo que me atraía muito e eu desejava ser médica. Então, esse era o meu grande sonho, estudar para fazer obstetrícia e ser parteira, que nem minha avó.
Não tinha clareza eu de que era influência delas, achava que era um desejo profundo, sincero meu, mas hoje olhando para trás eu acredito que teve essa influência, porque eu também gostava muito da parte de direito e da parte de jornalismo, inclusive fiz um teste vocacional na época que deu jornalismo em primeiro, direito em segundo e por último que foi a medicina, mas eu fui insistente e fiquei na medicina mesmo. E alguma insegurança ou conflito muito presente naquela época eram brigas, né? As brigas, a insegurança visual minha, da autoestima, eu não me sentia bonita, atraente, então eu fui para o lado da inteligência, né? Vou ser inteligente. Como eu também era clara, tinha o cabelo mais claro, loira, tinha aquelas bullying de... hoje se chama bullying, né? Mas era as brincadeiras de loira burra, então eu queria me destacar na inteligência e estudava pra caramba pra tirar notas ótimas, né? E as brigas e os conflitos em casa eu queria ter o meu canto, eu não me sentia bem na minha própria casa, assim, então eu preferia ir para a casa do namorado, ir para a casa das amigas e nem podia ficar muito tempo, que não era permitido, mas eu queria ter o meu canto, eu lembro muito disso.
O meu sonho era o conflito resolver, era ter a minha própria casa.
Bloco 1, minhas primeiras experiências afetivas. As primeiras experiências foram com um garoto, assim, ali por volta dos 11, 12 anos, né, que eu tava fazendo catequese, aí tinha um menino que se interessou por mim, mas eu não me interessava por ele, ficou só nessa coisa de, ah, gosta, não gosta, mas nunca tive nada. Depois teve um outro garoto que pulou o muro de casa e queria me pedir um beijo, e também não aconteceu nada, porque eu não gostava dele.
Depois teve, aí foi o meu primeiro namoradinho, com 13 pra 14 anos, que a gente ia no cinema, e aí no cinema rolava uma passada de mão, aí eu fiquei puta com ele, que ele passou a mão no meu seio, e eu não podia fazer isso pra lá, mas no fundo eu tinha gostado da sensação, né, tinha sido muito gostoso. E aí com o tempo, assim, dos 13, 14 anos, aí teve aquela briga, a gente proibiu, aí depois aos 15 a gente pôde namorar, e aí esse namoro foi indo devagarinho, devagarinho, até que com 17 anos depois da experiência violenta, né, eu acabei aceitando ter a primeira relação com ele, justamente por tentar apagar um pouco a vivência do estupro, mas também não foi uma experiência positiva, porque eu ainda tava bloqueada, né, foi uma relação sexual frustrante, vamos dizer assim. Demorou muito tempo pra eu realmente gostar de ter uma relação sexual, um ato sexual que fosse prazeroso.
A primeira vez que eu percebi o interesse pelos temas ligados ao comportamento humano e à sexualidade foi quando eu ia na casa das minhas primas, que eram mais velhas que eu, e tinha uma prima que ela tinha muito uns romances, uns livrinhos de romance, assim, e era sempre aquelas histórias, ou no inverno, na montanha, tinha um cara maravilhoso, perfeito, né, ou na praia também, a mesma coisa, e eu gostava muito de ler esses romances, pedir emprestado e ficar valendo. Então, as primeiras... e que me despertava, então, esse interesse, né, esse interesse afetivo e sexual por outras pessoas. Então, foi bem aí, nessa época da adolescência mesmo, através dessas revistas, desses romances.
Bloco 1, momentos da adolescência que eu acredito que ajudaram a formar a profissional que se tornou. Bom, eu gostava muito de declamar poesias, eu decorava poesias, poemas e declamava até no teatro, na cidade, quando tinha eventos com a escola. Então, eu era metida, gostava de declamar, já que eu não consigo cantar, porque o que eu queria mesmo era ser cantora, mas eu tenho déficit de processamento auditivo, então não sei diferenciar um Dó Ré Mi, cantar um Tirei Pau no Gato, sou muito desafinada.
Enfim, mas declamar era algo que eu gostava muito e eu acho que tem a ver com a profissional que eu sou hoje, para poder dar palestras, jornadas em congressos. Então, acho que isso me ajudou muito. E a outra coisa da adolescência, eu era do grupo juvenil, assim, de contestar, eu lembro da época das Diretas Já, então tinha um grupo de jovens que era meio politizado e eu participava desse grupo, eu representava a minha turma junto com outro rapaz, eu e ele, então ia na frente fazer os debates das leis, que eu gostava nessa época.
Atualmente eu não sou uma pessoa muito politizada, não me envolvo muito, não é uma coisa que eu gosto de me manifestar, vamos dizer assim, com a política, mas enquanto adolescente eu era bastante metida a querer mudar as regras, mudar as leis, fazer um mundo melhor e contestava, fui para as ruas nas Diretas Já e me manifestava nesse sentido, tinha um certo poder de liderança aí e representava a minha turma nisso. Então, acho que isso me ajudou a ser uma profissional mais competente hoje, nessas experiências que eu vivi na adolescência.
Bloco 1, se eu pudesse encontrar a adolescência que você foi, o que diria para ela hoje? Eu sinceramente diria para ela se divertir mais, sair de casa, ver mais amigos, ir para balada, se divertir com as amigas, não namorar desde cedo, não ter um namorado só, ser mais ousada, mas eu não sei como eu faria isso com a mãe que eu tive, porque eu não podia sair de casa, então não sei se eu conseguiria, mas eu diria isso para ela poder viver mais experiências, ser um pouco mais aventureira. E o que da menina que você foi ainda existe na mulher de hoje? Eu demorei para responder essa pergunta, para pensar o que eu iria falar, ela ficou martelando a minha cabeça alguns dias, mas a resposta que eu encontrei foi, eu acredito que da menina o que ficou é a esperança de que tudo vai melhorar, ser um pouco idealista, eu luto por um dia melhor, eu acredito que a gente pode fazer diferença no mundo, mudar as pessoas para melhor, ter mais paz nas relações e eu vejo essa menina, minha menina tinha essa esperança, então eu acho que isso ainda vive dentro de mim. É isso, acabamos o bloco 1.
Bloco 2. Em que momento você percebeu que queria ser médica? Eu cresci dizendo que eu ia ser médica, eu acho que eu tinha, na infância, essa coisa de cuidar das crianças menores, eu adorava fazer isso. Eu percebi, e no ensino médio, mais ainda, né? Mais ainda porque eu queria, eu tinha essa ligação muito grande com a questão do nascimento, eu imaginava uma coisa bem idealizada, eu achava uma coisa muito mágica a gente poder gerar a vida, e acredito que foi isso que me levou, o desejo maior, por influência da minha avó, que era parteira, minha mãe queria ser enfermeira, minhas primas queriam fazer medicina, então acho que essa influência familiar. Mas eu percebi mesmo na adolescência, quando a gente tá lá no ensino médio pra decidir a profissão, né? Existia algum médico ou referência que te inspirava? Não, eu não tinha referências médicas na minha família, nem ninguém que eu conhecesse, e também não tive, assim, fora da minha família, algum médico que foi referência pra mim.
Como que a família reagiu à escolha da medicina? Minha mãe achava que eu não ia conseguir, que a gente não tinha condições financeiras pra isso, já meu pai me estimulava, mas também não falava muito, mas ficaram muito contentes, né, de eu decidir por essa profissão.
Bloco 2, como foi a experiência até no vestibular e a entrada na faculdade? A minha experiência no vestibular foi bastante dura, eu levei três anos fazendo cursinhos, só passei no terceiro ano de vestibular. Então, como qualquer adolescente, eu me senti a última do mundo, burra, que eu não tinha estudado o suficiente, e foi bastante difícil, já era desafiador na minha época, era bastante concorrido, era uma das faculdades mais concorridas, muito candidato por vaga. O vestibular da UFSC é difícil porque ele tem, não é questão ABCD, questão somatória, eu sou ruim de somar, então perdi muitas questões por nervosismo e na soma, e não por falta de conhecimento.
Uma grande ansiedade na hora da prova, então eu tinha me formado no interior, em Criciúma, o ensino médio não tinha sido muito forte, eu não tinha clareza da dimensão do que era o vestibular no primeiro ano. Aí eu fiz um ano de cursinho, aí realmente fui entendendo melhor o que era o vestibular, fiz o segundo ano de ver prova e depois só no terceiro ano de vestibular que eu passei. Mas foi bastante sofrido esse período, muito estudo, muita dedicação, ía poucas festas, não saía final de semana, mas a entrada na faculdade foi maravilhosa, a conquista desse sonho, conhecer novas pessoas, conseguir entrar numa federal, na época também só tinha universidade federal, não tinha muitas opções, como tem hoje, de escolas privadas.
E eu pude, por coincidência do destino, vamos dizer assim, meu pai conseguiu ser transferido pra capital por causa do trabalho dele, e aí financeiramente as coisas foram possíveis, porque me manter numa outra cidade meus pais não conseguiriam. Então, foi um grande desafio, assim, porque a gente se mudou, meu pai conseguiu a transferência e viemos pra Florianópolis, pra minha mãe foi um momento bem de depressão, ela passou por um período depressivo, mas eu vivia essa entrada na faculdade muito feliz da vida.
O que mais me encantou nos primeiros anos da medicina, bloco 2, foi conhecer a anatomia, dissecar o corpo humano, a gente dissecava o cadáver, meu cadáver era uma mulher, eu lembro dela até hoje, a gente tinha todo um respeito com esse corpo, fez um ritual, teve missa, mas poder dissecar camada por camada e olhando o corpo por dentro, isso é impressionante, eu acho que isso foi o que mais me encantou, poder ter esse conhecimento. E se houve momentos em que eu duvidei da minha própria capacidade, sim, na segunda fase eu já tirei a minha primeira nota baixa na vida e ainda eu tirei um 3 e alguma coisa em fisiologia e eu fui fazer a prova de recuperação e consegui reduzir a nota ainda, não por falta de estudo, mas porque realmente era uma realidade, uma linguagem, um conhecimento totalmente diferente que eu não estava acostumada e isso foi assustador para mim e eu duvidei se eu ia conseguir dar conta, se eu ia conseguir chegar até o final. Então, dentro da faculdade eu era perfeccionista, eu era disciplinada, eu era estudiosa, eu vivia para estudar, eu era uma estudante muito dedicada, preocupada em tirar as melhores notas, em aprender e em aprender de verdade, eu estava totalmente comprometida.
O bloco dois, o primeiro contato com adolescentes na prática médica levou bastante tempo, na verdade durante a faculdade a gente quase não tem contato com adolescentes, nem na pediatria, e eu só fui ter contato mesmo na residência médica, que é depois de formada, que aí eu fui fazer a pediatria, e aí a gente atende adolescentes, mas também até 14 anos só, não mais do que isso. E a hebiatria surgiu na minha vida porque eu tava terminando a residência de pediatria, e eu gosto dos extremos na minha área, eu gosto da neonatologia que é o bebezinho até ali um meizinho de vida, e depois dos 10 aos 19, então eu gosto de brincar que eu não sou uma pediatra atípica, eu sou atípica porque eu gosto do começo e do fim, eu não gosto do que tá no meio, então atender crianças maiores assim, dos três anos em diante até ali uns oito, não é bem uma coisa que eu me identifico e que eu gosto de atender. Mas a hebiatria surgiu porque eu fui num congresso em Blumenau, pra conhecer um pouco da especialidade, porque ela não é muito conhecida, nem dentro do mundo da medicina, dos acadêmicos e tal, tem pediatras que não sabem que existe a medicina do adolescente como área de atuação da pediatria, e eu fui nesse congresso e eu fiquei encantada por sair das coisas estatísticas e matemática e ver a pessoa como um todo, a gente tinha questionamentos sobre o motel, outdoor de motel, pra discutir a sexualidade, o uso de drogas, o comportamento de risco do adolescente e eu me encontrei nesse congresso em Blumenau.
Então foi assim que surgiu a hebiatria na minha vida.
Bloco dois. Adolescência como fase humana, o que mais me chamou atenção é a gente precisa dar conta do contexto social, emocional, afetivo, esse contexto familiar, ver como é a vida mesmo da pessoa e não focar apenas numa doença ou em algum órgão que não está funcionando adequadamente. Então, sair dessa coisa da doença mesmo e ir para a saúde integral, que é bem-estar com a vida e a fase humana na adolescência exige muito desse cuidado médico, principalmente as questões emocionais e eu me identifico muito com a psiquiatria, com as questões emocionais, psicológicas, com o desenvolvimento do ser humano na parte psíquica, isso que mais me chama atenção e que é fundamental na adolescência.
Eu percebi que eu queria me aprofundar no tema da sexualidade quando eu fui buscar o tema do mestrado, eu estava terminando o R4 da medicina da adolescência, fiz seis anos de medicina, dois anos de residência em pediatria, mais dois anos de residência em medicina do adolescente lá na UNIFESP, na Universidade Federal em São Paulo, e eu queria fazer o mestrado e para isso eu fugi de um orientador lá, porque queria ficar nessas coisas mais orgânicas, problema de pressão arterial, com uso de som alto, de anseterias, e eu não queria isso. E aí eu pensei, fui me questionando o que eu gostaria, porque o mestrado você tem que ler muito, estudar muito, e eu pensei o que eu gostaria de me dedicar para estudar e foi aí que eu me encontrei com a sexualidade, resolvi estudar essa parte. Foi assim, a decisão do tema para o mestrado.
Bloco dois, sim, existiu um caso, uma história minha, pessoal, que marcou a minha decisão, que foi ter vivido duas experiências de abuso sexual. Uma aos sete anos, com o meu tio paterno, e a outra, um estupro de um desconhecido aos 17 anos. Isso, não tenho dúvida, me marcou profundamente, me causou o estresse pós-traumático, que a gente chama, né? Mas o que isso traduz? Muitos anos em silêncio, sofrendo calada, querendo apagar essa história da minha memória.
E aí, quando eu comecei a atender adolescentes, muitas histórias semelhantes à minha. E sentir de novo essa dor, né? Essa dor que a gente vive, primeiro vem uma sensação de culpa, de você ter feito algo errado, né? Foi você que ocasionou a trastoação. E depois vem uma sensação de vergonha, de achar que os outros vão te julgar e achar que você é que fez aquilo acontecer.
E depois, a sensação de que você tá suja, que você quer se limpar. Então, viver, reviver tudo isso nas histórias dos pacientes, né? Das adolescentes que eu vim atendendo. E não só garotas, mas garotos também, né? Vivenciam abusos e violências.
E reviver tudo isso me mobilizou mais ainda a aprofundar e entender melhor como que as coisas aconteciam. E principalmente, como a gente desenvolve a nossa sexualidade. Que coisas implicam em a gente ser saudável, ter uma construção saudável da nossa sexualidade.
Essa era a minha curiosidade sobre o tema.
Bloco 2. Escolher uma área com tanto tabu não é fácil, foi difícil, foi constrangedor muitas vezes, porque as pessoas te olham de forma diferente, elas te julgam, elas julgam como se você fosse safado, dão risadinhas. Quando eu dizia que examinava o genital dos adolescentes, sempre tinha um sorrisinho por baixo. Então, é constrangedor, você tem que estar muito seguro de si, entender que o tabu existe e que ele fala muito mais da pessoa que está me olhando, que estava me julgando, do que de mim mesma.
Mas foi uma escolha bem difícil, não é fácil. Eu não vou dizer que foi tranquilo, passei por momentos bastante difíceis em que eu não estava bem. Então, foi uma reconstrução da minha própria sexualidade.
E eu senti resistência de colegas, de professores e sinto até hoje, quando depois quando eu vim fazer, que eu pensei em fazer doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina, as pessoas têm muita resistência a esse tema, no mundo acadêmico principalmente. Então, usar os termos, os termos que as pessoas entendem, não só termos técnicos, tudo isso causa desconforto nas pessoas. Então, a gente sente a resistência dos colegas e dos professores e você tem que estar muito bem para poder lidar com isso de forma a não deixar te afetar.
Hoje eu já lido, eu já sei, eu posso dizer que eu já sei lidar, mas passei por maus bocados no passado.
Bloco dois, em algum momento precisou provar mais competência por atuar nessa área? Sim, a gente precisa mostrar que entende do que tá falando, né, que buscar firmeza nas nossas colocações e as pessoas, por ser um tema complexo e ter pouco conhecimento, né, uma ignorância sobre o assunto, e essa complexidade ser difícil das pessoas entenderem, diferente do que elas estão acostumadas, das crenças que elas têm, né, e isso faz com que você tenha provas do que você tá falando, vamos dizer assim, né, então na minha visão isso é provar que tem mais competência no assunto. O caminho até o mestrado em sexualidade juvenil foi longo, foi um caminho longo, eu tive que buscar conhecimento fora da UNIFESP, eu fui fazer muitas disciplinas na USP com a professora da psicologia social, a Vera Paiva, irmã do Rubens Paiva, e eu tive aula com ela, foi um, foi assim, um marco pra mim, porque é uma pessoa que foi pioneira nos estudos de AIDS, e eu tive que aprender muito, eu ouvi dela para botar o meu projeto de pesquisa no lixo e começar do zero, eu saí de lá arrasada, mas fui aprender muito, né, tive que aprender muito sobre uma outra visão, abrir minha visão, porque a área da psicologia é muito diferente da medicina, né, e eu tive que buscar toda essa complexidade e a quantidade de literatura, né, o que mais me impactou é a quantidade de literatura que existe sobre o assunto, o quanto a gente pode, até hoje eu não acho que eu tenha uma grande profundidade, porque tem tanta coisa para a gente aprender, que eu acho sempre que eu estou sempre aprendendo, sempre aprendendo algo novo, né, mas ao mesmo tempo, a forma que a psicologia descreve os assuntos, ela não é tão objetiva como a gente é na medicina, então eu tive que desenvolver muito essa habilidade, muita leitura para conseguir ter familiaridade com os termos e realmente entender o que eu estava lendo, o que eu estava estudando, então foi um caminho bem longo, bem árduo, com muita dedicação e muitas horas de leitura.
Bloco dois, o que mais me impactou durante a pesquisa foi não conseguir os garotos para fazer a pesquisa, então fiquei no universo só feminino porque assim como os homens adultos não vão ao médico, os garotos também participam muito pouco, então não conseguia convencer os meninos, os garotos a participar da entrevista, né, porque a metodologia da pesquisa ela foi qualitativa, eu fazia entrevistas gravadas e eu precisava que o adolescente consentisse e ficasse ali, eu fazendo as perguntas e gravando, então existe uma resistência dos garotos em tratar desse assunto muito mais do que as meninas e isso me impactou, porque eu não tinha essa percepção, eu não achei que ia ser tão difícil e foi, realmente eu tive que desistir porque senão não ia dar o tempo, não ia ter o prazo, né, eu tinha dois anos para completar o mestrado e tinha um tempo para coletar os dados, enquanto eu consegui 14 garotas, eu tinha conseguido só dois garotos e aí eu tive que fazer essa opção de... isso me impactou muito.
Bloco 2. Qual a maior descoberta humana que essa especialização me trouxe? E o que as pessoas mais entendem de errado, na minha visão, elas estão juntas, né? Porque a maior descoberta pra mim foi fazer a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. Que as pessoas confundem, tratam como se fossem a mesma coisa e são coisas totalmente diferentes uma da outra, elas estão interligadas, mas são coisas diferentes. E ter essa clareza, essa descoberta pra mim foi muito importante.
E eu entendo que as pessoas entendem errado sobre a sexualidade na infância e na adolescência, exatamente isso, né? A nossa identidade, ela vai sendo construída ao longo de toda a infância, até a adolescência, até a gente se tornar adulto. E na adolescência, você já começa a ter um despertar da sexualidade pra ir com o outro. E aí é quando você começa a viver experiências que vão lá na diante, quando você tiver maduro, definir a sua orientação sexual.
Então, pra mim, o que as pessoas não entendem é que lidar com a sexualidade na infância é totalmente diferente de lidar na adolescência. E a infância é mais a proteção que a gente precisa proporcionar. Já na adolescência, a gente tem que se preocupar com prevenção, trazendo consciência, porque só assim o adolescente vai fazer escolhas mais tardias, vamos dizer assim, iniciar a vida sexual de forma mais tardia, se a gente consegue prevenir de forma a orientar, a preparar, antes de que a vida sexual comece, né? E o que mais mudou nos adolescentes desde... Ah, essa eu vou responder depois.
Bloco 2. O que mais mudou nos adolescentes desde o início da sua carreira? Eu posso dizer que as gerações dos adolescentes mudou muito no sentido de abertura. Eles têm abertura para tratar dos temas da sexualidade de forma diferente do que era no passado. Eles aceitam mais as diferenças, eles se permitem viver experiências que os adolescentes no passado se viviam, viviam de forma bem escondida, velada e não deixavam transparecer.
E hoje não. Hoje eles falam, tratam do assunto com abertura, com leveza, com aceitação. Acho que essa é a coisa que mais mudou.
Qual a geração de adolescente que te surpreendeu mais? Para mim todas as gerações me surpreendem, mas sempre a atual me surpreende mais. As mulheres, as meninas, qual a diferença entre os conflitos da adolescência antigamente e hoje? Os adolescentes antigamente, elas casavam cedo, elas eram criadas para casar e ter filhos, cuidar de uma casa e ter filhos. E era normal para todo mundo, um adolescente de 15 anos, casar e ter filhos, cuidar de uma casa.
Hoje elas nem pensam em casamento, nem pensam que elas precisam estar com algum companheiro para viver a vida delas. Elas têm o próprio projeto de vida, às vezes não querem nem pensam na maternidade. Então a cabeça do adolescente atual é muito diferente do que eles viviam antes, que tinha que sair até para trabalhar, ajudar em casa, mais cedo.
Já tinham mais responsabilidades mais cedo. Eu acho que as gerações vieram mudando e à medida que a gente foi criando os nossos filhos, deixando mais tempo dentro de casa, esse período da adolescência foi se prolongando. Tanto que hoje, até com 30 anos, tem filhos dentro do caso dos pais ainda.
Então a adolescência é um período que se prolongou por conta de todas essas mudanças na forma de a gente educar. Então é bem diferente assim os conflitos do adolescente de antes. Passar pela adolescência é igual para todo mundo, em qualquer geração.
Mas essas mudanças através do tempo, em relação às responsabilidades, isso mudou muito.
Bloco 2. O que mais te emociona quando atende adolescente? O que mais me emociona é quando eu consigo fazer com que ele consiga ser ouvido pela sua mãe, pelo seu pai, quando ele faz uma carinha de que ele está concordando com o que eu estou falando e eu percebo que ele falou, puxa, até que enfim alguém me entende. Então essa dor que eles sentem por se sentirem não entendidos pelos seus próprios pais, como se eles fossem inadequados, como se só eles tivessem problema e os pais não conseguirem entender esse momento da vida, isso me emociona sempre que eu vivencio isso na minha frente. E quando eu consigo fazer com que um pai ou uma mãe consiga se dar conta que eles estão ficando distante dos seus filhos, perdendo a conexão e a gente consegue resgatar isso e consegue aproximar os pais de novo, isso me emociona cada vez que eu vivencio, cada vez que eu vejo que o clima familiar, o clima entre a mãe e o filho, a mãe e a filha se estabeleceu de novo, porque é um resgate do amor, do afeto, vamos dizer assim, porque a adolescência traz esse distanciamento pelas brigas, pelos conflitos, por não saber ter uma perspectiva adequada.
Então eu me emociono cada vez que eu vivencio isso ainda. E se existe história profissional que nunca saiu da minha memória, vou trazer duas pelo menos, que sim, nunca saiu da minha cabeça. Uma garota que eu atendi que tinha uma cicatriz na face, por uma queimadura que ela levou quando criança, porque o pai e a mãe estavam brigando, o pai alcoolisado, e nessa briga, nessa explosão, ela acabou ferida, e a mãe quando me procurou na adolescência, ela achava que a filha sofria por causa da queimadura, da cicatriz no rosto, e na verdade a dor da menina, da garota, era por não ter uma relação com o pai.
Isso me marcou profundamente, porque mostra que, às vezes, o que os pais acreditam que faz o seu filho sofrer é muito diferente do que realmente eles estão sentindo e sofrendo. E outra história foi uma adolescente que eu atendi que tinha passado por várias emergências, por falta de ar, e eu fui atendendo ela em psicoterapia, e à medida que a gente foi atendendo, foi identificando, ela tinha que pensar para respirar, ela não conseguia respirar sem pensar. Imagina o horror que é isso, a gente respira de forma voluntária, e ela não conseguia respirar.
E aí a gente foi atendendo ela toda semana, e ela começou a ter que pensar algumas vezes na semana, depois algumas, foi diminuindo a frequência, algumas horas, algumas vezes na semana, até que ela começou a conseguir respirar sem pensar de novo. E quando a gente conseguiu isso, juntas nesse processo, eu fiquei muito feliz por ela, porque era muito angustiante o que ela vivia, e o que estava por trás era que há três anos antes do que ela tinha passado comigo, o ex-namorado dela tinha tentado se matar, porque ela não queria mais estar com ele, e a família, ele foi parar numa UTI, e a família, em vez de olhar para o contexto todo, e na maioria das vezes, quando existe uma tentativa de suicídio, também existe um transtorno psiquiátrico, a família, em vez de olhar para o seu filho, foi culpar a menina, ligava para ela, fazia ligações, e ela estava com esse trauma, vivendo naquele momento, ainda hoje. Então, essas duas histórias me marcaram muito, nunca saem da minha memória.
Bloco 2. Você acredita que escolheu essa profissão, a medicina, ou que ela escolheu você? Olha, eu não acho que a profissão me escolheu, não. Acho que eu escolhi a profissão através de várias pequenas escolhas que eu fiz ao longo da minha vida. É isso que eu acredito.
Eu acho que eu fui escolhendo essa profissão, mas eu me identifico muito com ela. Acho que eu faria qualquer coisa na minha vida que eu me dedicasse, mas eu amo a profissão que eu tenho pelo simples fato de entender como nós somos. E ter vivenciado a pandemia sendo médica foi a maior certeza que eu tive em relação a isso também, porque é muito gratificante a gente saber, ter o conhecimento profundo de como que nós somos, de como que nós funcionamos, de como que a gente vive a vida.
Então, eu sou muito realizada com a minha profissão, mas eu acredito que eu que a escolhi.
Bloco 3, meus relacionamentos amorosos. Eu não tive muitos, eu só tive um namorado dos 13, na verdade 14 anos, até ali os 19 e dos 19 até os 24 com a mesma pessoa que foi a pessoa que eu casei. Então, eu não tive muitos relacionamentos amorosos na minha juventude.
Eu era muito romântica, era uma jovem romântica, idealizava um amor perfeito, onde achava, acreditava que tinha uma pessoa que era sua cara metade, que te completava, metade da laranja, como falavam. Eu acreditava nisso, acho que por uma questão também religiosa da família, a religião, eu sempre fui muito da igreja católica, a gente preservava essa coisa da família perfeita, todo mundo feliz, e eu acreditava um pouco nisso. Eu imaginava que a minha vida afetiva no futuro fosse essa família idealizada, perfeita, onde a gente não brigava, onde um entendia o outro, por mais que tivesse diferença, ia sempre existir harmonia, e a vida real não é bem assim, né? Mas eu acreditava, eu imaginava que ia ser.
Tinha muita inocência, né? E eu acho que isso tudo, essa inocência, a dificuldade de ver a maldade, isso foi tudo muito construído pelas questões religiosas, que eu sempre acreditava que as pessoas só tinham o lado bom, né? O lado bom, o lado positivo, eu demorei muito pra enxergar e ter contato com o lado ruim das pessoas, vamos dizer assim, com o lado perverso, né? Então, que nem sempre as pessoas estão interessadas em realmente te ajudar, eu ainda tenho, tinha isso.
Bloco 3. O que o meu primeiro grande relacionamento me ensinou, que foi a pessoa que eu casei, que eu encontrei num grupo religioso, que a gente ficou a primeira vez num movimento de igreja, a gente tinha ido viajar num movimento da igreja pra Minas Gerais, num movimento do Emaús que chamava, mas o que ele me ensinou foi que a gente precisa aprender a manter a nossa individualidade, apesar de formarmos um casal, estarmos juntos como casal, cada um tem a sua individualidade e eu me misturava muito, tinha muita facilidade assim de viver em função do outro, isso quer dizer, era uma dependência emocional, então à medida que eu fui tendo clareza disso, eu acho que o grande aprendizado é esse, a gente nunca e pode esquecer que nós temos a nossa individualidade, independente de estar num relacionamento. E algo daquela época que ainda ecoa em mim, eu vivi momentos de muita cumplicidade, então eu acho que a cumplicidade é algo que eu levo de um relacionamento entre casais.
Bloco 3, como o amor mudou sua forma de chegar à vida? Achei essa pergunta bem difícil para mim chegar numa resposta, mas eu acredito que o amor mudou a minha forma de chegar à vida no sentido de quando a gente se sente amado, né, é muito gostosa essa sensação e principalmente quando a gente aprende a se amar de verdade, né, amar quem a gente é, do jeito que a gente é, aceitar as nossas limitações e potências, mas olhar para nós com esse amor, eu acho que o amor mudou a minha forma de chegar à vida nesse sentido, que a gente precisa estar feliz com a gente mesmo e é gostoso se sentir amado pelo outro, isso também nos deixa feliz, são momentos de felicidade, né, então acho que o amor mudou a minha forma de chegar à vida nesse sentido, porque a gente acredita que vai ter, chegar num momento e ser feliz, encontrar felicidade e não é assim, a vida tem os seus momentos e o amor tá no nosso dia, no dia-a-dia, na nossa convivência, né. Você, eu acredito que amadureci emocionalmente através do relacionamento? Sim, eu acredito que eu amadureci muito através dos relacionamentos, né, eu tive bastante conflitos, né, no casamento, meu primeiro marido tinha um perfil narcisista arrogante e até eu me dar conta disso levaram-se vários anos de terapia, eu me mantive casada durante 10 anos, mas eu gosto de traduzir cinco foram bons, cinco foram muito ruins, é claro que não foi assim nessa ordem, né, cinco bons, cinco ruins, eles oscilavam, mas eu amadureci muito, nossa, eu sou outra pessoa, né, outra mulher do que eu era antigamente, eu era submissa, eu tinha dificuldade de dizer não, de dar os limites, eu servia o pratinho pro marido, eu fui, eu tive uma educação bastante machista, então eu acreditava que os homens eram superiores às mulheres, eu tinha uma sensação de inferioridade no relacionamento, então imagina, isso tudo mudou muito, mudou muito e eu amadureci muito, não tenho dúvida.
Bloco 3, o que foi mais difícil aprender sobre amar? Diante dessa pergunta, o que me veio na cabeça foi que algumas vezes a gente precisa ceder, né? Num relacionamento, numa relação. Só que a gente precisa ceder tomando cuidado pra nunca ferir a nossa verdade. Então, o mais difícil pra mim foi me dar conta disso, né? Que eu até podia ceder, mas eu não podia ferir a minha verdade.
Eu precisava ser fiel ao que eu acredito, ao que me faz bem, ao que não vai me machucar depois. E eu não tinha essa clareza, né? Então, isso foi um aprendizado que eu aprendi a duras penas. Em algum momento, eu precisei escolher entre a vida pessoal e a carreira.
Teve um momento no meu relacionamento que o meu primeiro marido resolveu fazer um MBA, um mestrado fora do Brasil. Ele foi em um mestrado de sanduíche. A gente já estava casado.
Ele foi pra Itália e depois ia terminar nos Estados Unidos. E nesse momento, eu estava na residência de pediatria. E se eu quisesse me manter com ele, né? Ir junto, eu precisaria desistir da residência e depois, quem sabe, fazer prova de novo pra tentar entrar e tal.
E eu decidi que eu não ia, né? Eu decidi ficar, decidi manter a minha profissão. E eu acredito que essa escolha, sim, balançou a nossa relação. Foram 11 meses morando longe.
Só no... Eu fui visitá-lo nesse período de 11 meses uma vez. Então, era um casamento bem à distância, na época que não se tinha internet. Pra gente conseguir falar na internet, tinha que marcar hora.
E, às vezes, você estava ali falando, era caro. E tinha que falar rápido e caía. Então, sim, eu escolhi a minha carreira.
Essa foi a verdade.
Eu, bloco 3, como que eu lidava com culpa, cobrança ou expectativas externas? Eu, como já falei, eu tinha um perfil bem idealista, sofria muito, me culpava, sim, me cobrava. Eu fui buscar terapia. Eu lidava de que forma? Buscando terapia.
Eu fui buscar me conhecer e esse autoconhecimento me fez enxergar muitas coisas e me mudando, transformando, cobrando menos de mim, aprendendo a ter mais compaixão comigo mesma e aprendendo a não dar bola para as expectativas externas, tipo o que o outro espera de mim é o outro. Se eu não tenho essa expectativa comigo mesma, por que eu vou dar valor para o que o outro espera? Mas foram anos de terapia, fiz terapia individual, depois fiz terapia em grupo e aí fui aprendendo a lidar. Os relacionamentos, o que me ensinaram sobre limites e autonomia? Eu precisei aprender a dizer não, eu tinha muita dificuldade em dizer não, eu era a pessoa que dava conta de tudo, fazia tudo, resolvia tudo, me sobrecarregava, não sabia nem enxergar o meu próprio limite e com o tempo eu fui me dando conta e respeitando a mim e sabendo dizer não, dando esse limite e a autonomia, o que eu entendo de um relacionamento, o que eu aprendi nesse relacionamento foi que a gente não precisa depender emocionalmente do outro, não é o outro que vai me fazer feliz, porque eu sentia isso como se o meu casamento acabasse, como é que eu ia conseguir ser feliz, não ia ter mais ninguém no mundo, era assim que eu vivia naquela época e eu me dei conta que não, que a gente não depende emocionalmente de ninguém e principalmente não precisa depender financeiramente, porque as mulheres têm mais dificuldade de se manter financeiramente e eu graças a Deus me dei conta de que eu podia me dar, viver a minha vida financeiramente também sem depender de ninguém, então o relacionamento me ensinou isso.
Bloco 3, você acredita que as mulheres da sua geração viveram afetivamente sob mais pressão? Eu acredito sim, eu acredito que na minha época as mulheres já estudavam, já trabalhavam fora, mas elas ainda ganhavam menos do que os seus maridos, ainda tinham muito a função da maternidade e precisavam se dedicar aos filhos e muitos maridos ainda, né? Eu acho que a pressão era até dessa relação de poder dos homens por proverem, ganharem mais, até determinar o que a mulher podia ou não podia fazer, sair ou não sair com as amigas, por exemplo. E eu acreditava que... a outra pergunta, o que mudou na sua visão sobre casamento ao longo do tempo? Eu acreditava que o que Deus uniu o homem não separa, eu acreditava muito nessa frase da igreja católica e acredito que por conta dela, por ser uma crença que eu trouxe dos meus pais e da minha educação, era um valor pra mim e eu vivi mais tempo num casamento que não estava me fazendo bem por acreditar nisso, que o que Deus uniu o homem não separa. E hoje eu entendo que não, que não é bem assim, que era uma crença que me limitava e isso mudou pra mim.
Eu acho que só pode ser bom, a gente só deve se manter num relacionamento enquanto estiver sendo bom no sentido de crescimento. Esse relacionamento tá me fazendo crescer, eu tô fazendo o outro crescer, a gente tá evoluindo, a gente tá se tornando pessoas melhores, então isso vale a pena. E não uma crença religiosa, então isso mudou muito pra mim.
Bloco 3. Hoje, olhando para trás, o que diria para a mulher que você era naquela fase? Naquela fase, eu diria para a mulher, não tenha medo. Você é capaz de dar conta de você. Se não está bom, tenha coragem de ir adiante.
Você pode, você consegue. Eu diria isso com todas as forças que eu tenho. E existe alguma dor afetiva que contribuiu para a sua maturidade? Uma dor afetiva que contribuiu para a minha maturidade? Essa dor afetiva.
Eu acho que a dor da separação, de se sentir sozinha. A dor do estupro, de se sentir invadida, não respeitada. Isso fez com que eu tivesse esse trauma, um bloqueio, que eu precisei desbloquear.
Precisei buscar ajuda para desbloquear. Então, essa dor me fez buscar esse amadurecimento. Para eu poder hoje ser a pessoa que eu sou, eu precisei me livrar dessa dor.
E isso me amadureceu. Como você acredita que os relacionamentos influenciaram sua forma de atender pacientes? Ah, essa eu vou responder depois.
Bloco 3, 76. Como você acredita que os relacionamentos influenciaram sua forma de atender pacientes? Eu acredito que os relacionamentos me ajudaram a saber me colocar na posição, né, do outro nessa relação da mãe que não consegue dizer pro pai o que o filho precisa, por exemplo, dela ser mais submissa, por eu já ter vivido experiências semelhantes no passado, na minha vida, no meu relacionamento. Então, me colocar no lugar do outro, da mãe principalmente, né, faz com que eu tenha uma forma mais empática mesmo de ter, às vezes a gente acredita que a solução seria a mãe se livrar do relacionamento, ser forte, corajosa e cuidar do seu filho.
Mas às vezes não é esse o caminho, né, cada mulher tem o seu momento, a sua força e eu ter empatia com ela faz com que eu possa acolher essa fragilidade, esse tempo dela, que é um tempo dela, pra poder ajudar melhor no atendimento com o filho, com o paciente. Porque eu atendo a família, não atendo só o adolescente, eu atendo a família toda. Então, isso é fundamental e eu não tenho dúvida que eu ter vivido experiências de relacionamentos me faz atender de uma forma muito mais acolhedora mesmo, essa palavra principal de acolhimento.
Bloco 4, como você conheceu o seu marido? Eu conheci no Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente, lá na Unifesp, quando a gente estava fazendo a residência, porque ele também é pediatra. Estava fazendo um sanduíche que chama de dois meses na adolescência, porque ele fazia em Salvador, a pediatria. Eu estava, inclusive, discutindo sobre o meu mestrado, quando ele apareceu na porta.
Estávamos falando sobre sexualidade, e aí todo mundo, quando trata desse assunto, dá risada, faz brincadeirinhas. E ele, como era novo no setor, não me conhecia também, e aí a gente começou, estava num grupo, mais outros médicos conversando, e foi assim o primeiro encontro, a primeira visão, vamos dizer.
Eu, Bloco 4, o que chamou minha atenção inicialmente, na verdade, uma colega médica minha que a gente estava almoçando junto, ele apareceu, veio nos cumprimentar, ela fez um comentário sobre o corpinho dele e, vamos dizer, que era bonito, chamava a atenção. Então, eu também fui olhar para essa parte, foi isso que me chamou a atenção, mas ele era um cara mais maduro no setor, mais diferenciado, não era um cara jovem, ele tem três anos a mais que eu, então tinha uma conversa diferenciada. Eu acho que isso que me chamou mais atenção, essa maturidade.
Bloco 4, eu senti que ele seria meu parceiro de vida depois de algum tempo a gente se relacionando já. Porque eu tinha recém me separado e aí eu precisava de alguém para me substituir no hospital onde eu trabalhava em São Paulo e eu queria voltar para Florianópolis. Eu precisava arrumar alguém para me substituir e ele foi o candidato.
E num dia a gente começou, ele foi me entregar o currículo dele e tal, mas na verdade a gente teve o primeiro encontro, vamos dizer assim. E a gente começou a ter uma relação de namorido, que a gente chamava, né? Meio namorado, meio marido, não era uma coisa bem certa, não tinha um compromisso, mas a gente acabou ficando só um com o outro e essa relação foi a distância daí, porque eu voltei para Florianópolis e ele ficou em São Paulo. Só que aí com o tempo, né? A gente se via a cada 20 dias.
Eu queria muito ser mãe e ele já sabia disso, já sabia que eu estava separada, né? Ele conheceu meu ex-marido, enfim, a gente já era amigos antes de se tornar namorido, vamos dizer assim. E aí eu falei, olha, eu já estou com 34 anos, gostaria muito de ser mãe e nisso a gente decidiu ficar juntos. Foi assim que eu percebi que nós seríamos parceiros, porque ele topou ficar comigo e embarcar no meu desejo da maternidade.
Bloco 4. O que vocês têm de mais parecido? O que a gente mais tem de parecido é gostar de ter tempo livre, não viver a semana inteira só trabalhando, né? Poder ir no meio da tarde, por exemplo, no cinema, agora que eu moro em Floripa, aí caminhar na praia, né? Ter alguma coisa que seja sentir que você está vivendo a vida e não vivendo em função de sobreviver. E o de mais diferente acho que é a ambição, né? Eu sou um pouco mais ambiciosa e acho que o Cláudio é zero de ambição na vida dele. Ambição por querer melhorar em todos os sentidos, não apenas financeiramente, né? Mas acho que principalmente nessa questão de se sentir evoluindo.
Ele é mais acomodado, mais um dia por vez, e eu sou um pouco mais acelerada.
Bloco 4, eu já falei como a gente atravessou os momentos difíceis, a gente faz grupos de terapia, a gente participa, ele participa de um grupo de homens, chama Guerreiros do Coração, eu participei do grupo de Mulheres Tendeiras da Lua, a gente vai buscar ajuda terapêutica, né, acho que a gente tem essa consciência. E juntos, quando éramos mais no início do relacionamento assim, né, com as meninas pequenas, a gente sempre preservou momentos juntos, ir para um motel, ter o nosso momento de intimidade, né, viajar nas férias de julho, por exemplo, ele tem uma casa na Bahia que ele aluga e a gente ia para lá para ele já fazer manutenção, mas a gente tirava como a nossa lua de mel e saía, fugia do frio daqui, ia para o calor, porque nós dois temos asma e já juntava o útil ao agradável, né, melhorar a situação da casa, sair um tempo só para nós e fugir do frio. Então, a gente passava esses momentos juntos.
O que ele trouxe de equilíbrio, o que você admira mais nele, ele é uma pessoa que tem uma grande sensibilidade, tem um coração enorme, assim, mas ao mesmo tempo tem uma certa fúria interna, né, que é muito dele, mas eu admiro essa sensibilidade, esse olhar para o outro com sensibilidade. Ele é também médico, as pessoas muito elogiam ele nos ambientes de trabalho, a atenção que ele dá, o quanto ele é cuidadoso com as pessoas e sempre busca realmente a saúde, né. Ele foi atleta enquanto jovem, então ele sempre estimula isso nas pessoas e estimulou em mim também.
Eu gosto de dizer que eu sempre fui muito para estudar mental e ele é muito dessa parte física, cuidar do corpo e ele me incentiva, me dá disciplina nesse sentido de fazer atividade física também. Então, o equilíbrio para a minha vida é um pouco do relaxamento que vem através da atividade física.
Bloco 4, como foi construir uma vida juntos? Foi incrivelmente gostoso, porque a gente teve filhas gêmeas, né? Eu acho que esse desafio maior de educar duas crianças ao mesmo tempo, cuidados, cuidados, foi bem desafiador. E acho que um apoiou o outro, né? Um deu força para o outro nesses momentos e foi muito gostoso poder compartilhar minha vida com o Cláudio, com a paciência que ele tem, ele é uma pessoa muito paciente, sabe, sei lá, aproveitar, ter paciência para viver cada momento, vamos dizer assim. Quais foram os maiores desafios, né, do casamento? A gente viveu alguns desafios, entre eles, o primeiro deles foi quando as meninas tinham 3 anos na educação delas, a gente nunca tinha discutido e foi nossa primeira discussão.
E depois, quando elas estavam com 10 anos e eu estava entrando no climatério, eu fiquei mal, comecei a me dar conta que eu só vivi a maternidade, tinha esquecido de mim, e isso fez a gente também balançar um pouco no relacionamento, mas muito porque eu não estava bem, né? E agora, quando eu resolvi empreender, que não foi uma escolha que o Cláudio aceitou muito bem, porque no começo ele me apoiou bem, me incentivou, mas à medida que eu tive que ir me dedicando cada vez mais, trabalhando muito, eu acho que no fundo ele gostaria que eu desistisse de empreender. Então, a gente foi fazer terapia de casal, fizemos terapia de casal por 2 anos, e estamos aí recuperando, resgatando com mais clareza desse momento que cada um de nós está. Ele mais para se aposentar e eu querendo aí evoluir na questão da empresa, questão de querer palestrar, mudar a vida das pessoas, não consigo me ver uma velhinha aposentada, sossegada na praia, vivendo um dia por vez, fazendo artesanato, não é isso que eu desejo para mim.
Então, acho que a gente pensa um pouquinho diferente nisso, e isso fez a gente perder um pouco da conexão de um projeto juntos.
Bloco 4. Como ele lidou com a sua dedicação em ter essa profissão? Em relação à medicina, ele sempre entendeu, sempre soube que eu era trabalhadora, trabalhadeira, ele fala. Ele também é médico, então entendia bem. A gente se conheceu por conta da nossa profissão, mas em relação ao empreendedorismo, que nem eu tinha clareza do que eu estava me metendo, de que eu tinha um grande desejo de atingir, ajudar e proteger e prevenir, fazer educação sexual nas redes sociais, porque eu entendia que os jovens estavam ali, mas eu não tinha clareza que isso era empreender.
E isso está me dedicando muito tempo, são cinco anos já de dedicação, e quando ele começou a perceber que o resultado não era tão imediato como ele imaginava, foi bem difícil ele aceitar. Tivemos brigas, a gente sempre dividia financeiramente as nossas contas em casa, manutenção da casa, coisas com as filhas. Ele precisou assumir, não gostou disso, ele não gostou dessa parte, queria que eu continuasse colaborando, mas eu me dediquei à empresa e direcionava meus recursos para a empresa.
Então, é um momento que até a gente definir que eu daria um prazo para investir nessa empresa, que é cinco anos, ele não sossegou muito. Agora ele está aí, stand by, vamos dizer, vendo o que eu vou fazer, o que vai dar, vamos dizer assim. Mas me senti apoiada, tirando a questão que ele não acha que seria, para que isso, estamos quase aposentando, já temos o suficiente para viver, para que eu quis inventar isso.
É assim que ele pensa, mas ele me apoia, ele respeita a minha escolha, minha decisão, me participa muitas vezes, me dá apoio sim, me sinto apoiada.
Como vocês dividiram a maternidade e a rotina familiar, bloco 4. A gente não dividia muito no começo, eu assumia tudo, mas à medida que eu fui me dando conta, eu fui falando. É muito simples assim, ele falou, ué, eu não faço porque você não pede. Aí, quando eu me dei conta disso, a gente começou a dividir as coisas.
E aí foi dividindo quem leva na escola, quem busca, quem vai ao supermercado, quem guarda, quem faz a lista, quem dobra as roupas. Então, depois que eu levei algum tempo para me dar conta de que eu resolvia tudo, fiquei sobrecarregada, mas fui me desenvolvendo e aí a gente foi pontuando, falando, olha, preciso da sua ajuda para isso, temos que fazer tal coisa e tal. E ele sempre correspondeu, a gente sempre conseguiu se ajustar nas conversas.
Através da conversa, a gente foi se entendendo e foi dividindo as tarefas. Se o humor, o diálogo, a amizade tem mais força no nosso casamento, eu diria que é a amizade. Acho que a amizade é o papel mais forte.
O humor, não, porque eu sou uma pessoa que tenho dificuldade de captar as brincadeiras, principalmente as brincadeiras da família do Claudio e dele são mais sarcásticas, aí eu tenho mais dificuldade ainda. O diálogo, a gente tem dificuldade de conversar, precisamos de muita paciência, às vezes, na forma de conversar, buscamos terapia para isso. Então, o diálogo é uma coisa que flui com facilidade, de coisas íntimas, claro, né? E eu acho que é a amizade.
A amizade é estar junto, mesmo nas horas difíceis, né? Quando um tá mal, quando o outro tá mal, a gente tá um do lado do outro. Então, pra mim, o que é mais forte é a amizade. E o que mantém o nosso relacionamento vivo depois de tantos anos são momentos de qualidade, a gente preserva momentos de qualidade juntos, nós dois, em família.
Então, é sair pra ir jogar sinuca em família ou ir no cinema, adoramos fazer isso juntos, nós quatro, passar o dia na praia, fazer até o esporte junto. Teve uma época que eu, a Laura e ele, até a Bia também fazia natação, mas depois ela não gostou. Então, a gente preserva muito esses momentos de qualidade.
Bloco 4, como a gente preserva a individualidade? Eu acho que a gente começou a se relacionar já mais maduro, né? Eu tinha 34 anos, ele tinha 37, então a gente já tinha vivido muitas coisas, muitas experiências antes. E aí, eu acredito que por isso a gente sempre preservou muito a nossa individualidade, né? O Cláudio tem um perfil um pouco mais egoísta, assim, no sentido de saber se priorizar, né? Uma das coisas que eu aprendo com ele é se colocar em primeiro lugar, então cuidar de si, né? Então, a gente respeitou sempre quando ele vai pro grupo dos guerreiros, quando ele quer sair com um amigo. Então, a gente sempre preservou isso, a nossa individualidade, o que a gente gosta de fazer sozinho.
E a gente faz, a gente respeita, nenhum dos dois limita o outro por isso. Eu acho que isso é um grande sinal de respeito, acho que o respeito é a principal coisa que faz a gente ter a individualidade preservada. O que ainda faz você se apaixonar por ele? Eu diria que o incentivo pela busca espiritual, ele tá num momento, como ele tem essa sensibilidade, né? Agora tá investigando uma mediunidade, sei lá, eu acho que isso é algo que eu ainda gosto de ver essa sensibilidade, essa busca pro autoconhecimento, por se conhecer e se melhorar, ele tem essa busca e eu acho que isso faz eu continuar com ele, me apaixonar por ele.
Como você definiria hoje o amor maduro? Ah, eu diria pra mim, em poucas palavras, que o amor maduro, ele acrescenta na nossa vida. Então, acrescenta pra gente se sentir bem, te faz sentir bem, te faz crescer, faz sentir que você tá melhorando. O amor maduro pra mim, ele é o amor que acrescenta.
Bloco 5. Como foi descobrir que seria mãe? Foi incrivelmente maravilhoso, porque eu estava indo investigar novamente a minha ovulação. Eu teria que esperar o novo ciclo menstrual, porque eu já tinha tido três, na verdade cinco abortos. Três abortos com o primeiro marido e dois com o pai das meninas.
E eu já sabia que eu tinha insuficiência lútea. E eu ia começar de novo um acompanhamento com uma médica ginecologista da saúde reprodutiva, e ela me pediu para acompanhar a ovulação. E aí eu fui para São Paulo, eu fazia 36 horas de plantão, e aí quando eu cheguei em São Paulo, o Cláudio me pegava no aeroporto de Congonhas, a gente ia para um motel, aí a gente tinha relações, e eu ovulei e engravidei da Bia.
E aí eu fui para o plantão, trabalhei sábado e domingo. Domingo fui para casa, ele me buscou. A gente naquela época era videolocadora e estava cansada no plantão.
Aí descansamos, assistimos filme, e na segunda-feira de manhã a gente teve outra relação sexual de despedida, porque eu voltava para Floripa para trabalhar. E aí eu ovulei novamente e engravidei da Laura. E aí eu estava esperando o ciclo menstrual acontecer para poder fazer o exame que a médica tinha me pedido, e ele não aconteceu.
E como eu já tinha tido cinco experiências de aborto antes, eu identifiquei os sintomas de gravidez, meu seio mais inchado, sei lá, me senti diferente. E quando eu fui fazer o BHCG e deu positivo, foi também outra história incrível, porque meu pai fazia parte de uma igreja chamada Santo Antônio, aqui em Florianópolis, que vendia, que dava os pãezinhos com os bilhetinhos dentro, né, do Santo Antônio. E aí ele chegou da missa, me deu um pãozinho, e no pãozinho estava o meu bilhetinho que eu recebi, estava escrito que eu ia receber um milagre extraordinário.
E realmente o BHCG estava altíssimo. Nesse momento eu ainda não sabia que eu estava grávida de gêmeos, só sabia que eu estava grávida, né, o BHCG tinha dado positivo. E foi muito gostoso.
Fiquei feliz da vida e realizando um sonho que era de ser mãe, que eu já tinha há muito tempo.
Bloco 5. Como eu vivi a gestação das meninas? Foi especial, porque eu morava em Florianópolis sozinha, tinha voltado pra cá, tinha comprado um apartamento com o dinheiro da venda do meu apartamento com meu ex-marido, então o apartamento era só meu, era o meu canto, eu consegui imobiliar ele todinho do meu gosto, do meu jeito. Foi uma grande conquista ao mesmo tempo pessoal e junto à maternidade planejar o quartinho delas e toda a gravidez eu passei sozinha na praia, como eu amo morar, como eu tinha que usar progesterona em altas doses, eu tinha muito sono, não tinha desejo sexual, mas foi maravilhoso, porque daí eu tava sozinha, eu curti cada momento da gravidez, ia caminhar na praia, conversava com a minha barriga, fazia o que eu queria na hora que eu queria, fui curtindo cada momento, os seis primeiros meses eu não tive nenhum sintoma ruim, assim, do quinto pro sexto mês eu dei um grande avanço de peso, que é o esperado, mas eu não tive intercorrência, me sentia gravíssima, gravidíssima, me sentia a mulher mais linda do mundo, foi muito gostosa essa experiência e cada vez que eu falava que eu tava grávida de gêmeos e todo mundo manda, assim, as pessoas têm uma reação muito positiva, manda uma energia boa pra gente, foi um período muito bom da minha vida. O nascimento delas mudou a sua visão sobre a vida? Sim, porque elas nasceram prematuras, eu não consegui levar a gestação até o final, elas nasceram com 31 semanas, sete meses e meio, pesaram 1,4 kg, tiveram que ficar na UTI e limiar entre a vida e a morte esse período muito crucial, mas como eu sou pediatra, já tinha vivido muitas experiências de bebê desse tamanho, eu sabia que elas ficariam bem, que elas viveriam, mas sempre é um momento de muita atenção, então o nascimento delas em relação à visão da vida pra mim mudou a relação, a importância da minha vida, do quanto a gente precisa tá forte pra poder cuidar do que a gente trouxe pro mundo, e eu precisei ser muito forte nesse momento, e claro que em alguns momentos dava uma certa insegurança, mas eu era confiante, tinha muita confiança de que tudo ia dar certo, e deu, e elas cresceram, ficaram apenas 37 dias na UTI pra ganhar peso, quase não precisou de nenhum suporte, de respirador, nada disso, um pouquinho só de oxigênio no início, o antibiótico, terapia, e ficaram bem.
Bloco 5, o nascimento delas mudou a sua visão sobre a sua profissão? Demais, né? Eu sou uma pediatra antes de ser mãe e sou outra pediatra depois de ser mãe. Muitas das minhas crenças, do que a teoria diz que é pra ser, se modifica demais, porque a vida real, eu gosto de dizer que a prática é diferente da teoria, né? A prática na teoria é outra coisa, a prática na teoria é outra coisa. Então, a gente aprende muito como o que é ideal de ser feito e o que a gente consegue realmente realizar na realidade.
E ser mãe mudou isso na minha profissão, esse meu olhar na pediatria com as outras mães, eu queria muito amamentar, por exemplo, era um sonho conseguir amamentar. Eu amamentei, mas eu sempre tive que suplementar e só até o quarto mês de vida delas. E antigamente, eu achava que antes de ser mãe, ter vivido essa experiência, eu achava que toda mulher devia amamentar, por exemplo, porque na universidade, né, como residente de pediatria, a gente tinha que incentivar as mães ao aleitamento materno.
Então, saía essa culpa de que às vezes a natureza não te dá essa oportunidade, né? E não é uma coisa só de querer, às vezes é mais forte do que a gente. Só o bebê ter que ficar numa UTI, por exemplo, não sugar no peito, tudo isso vai dificultando a possibilidade da amamentação. Então, com certeza, o nascimento delas mudou a minha profissão.
Bloco 5, como foi segurar suas filhas pela primeira vez? Diferente da maioria das mães, que logo depois que nasce o nenê já vai pro colo, as minhas não. Eu só fui vê-las mesmo no dia seguinte, numa incubadora, dentro de uma incubadora. Não pude pegá-las, só pude tocar o dorsinho, com a mão dentro da incubadora.
Levou alguns dias pra que elas pudessem vir pro meu colo. Mas quando elas vieram a primeira vez, eu fiz uma coisa que chama-se mãe-bebê-canguru. Então, você fica sem a roupa, e o bebê fica pele a pele com você, e eu tinha dois bebês, um em cada lado do meu corpo, no meu carinho, no meu aconchego, e parecia uma criança.
Eu me sentia como uma criança com um brinquedo novo, de tão feliz que eu tava, né? Claro que é uma analogia simples, mas eu tava muito feliz, era com aquela alegria da criança genuína, sabe? Foi isso que eu senti, muito realizada, foi muito gostoso. Essas emoções marcaram muito aquele período de realização, de satisfação, de felicidade mesmo, de tudo de bom que a gente pode sentir. Acho que eu nunca me senti tão feliz.
As fotos que eu tenho desse período mostram que a minha cara parecia uma menina feliz da vida. Então, era uma mulher que ainda não tinha nenhuma experiência da maternidade, mas que desejava muito isso, né? Então, eu tinha conseguido realizar algo que eu achei que eu não conseguiria, porque eu tinha tido cinco perdas, né? Então, eu achava que o meu corpo não ia dar conta disso, e eu consegui. Eu consegui.
Acho que o meu desejo era tão sincero e profundo, a minha intenção, que o universo, Deus, o que é que seja, a providência me ouviu e me trouxe esses dois serzinhos lindos na minha vida.
Bloco 5, como era a minha rotina nos primeiros anos delas? Exaustiva, exaustiva. Tinha dia que eu não conseguia nem escovar os meus próprios dentes. Eu fiquei com olheiras, porque eu não conseguia dormir mais do que uma hora consecutiva.
O intervalo entre elas de três em três horas não existia, porque quando uma não estava chorando, a outra estava. Então, foi muito desgastante. Algumas noites eu chegava no meu limite, limite mesmo de acreditar que a minha sanidade mental não ia permanecer, que eu ia ser internada no instituto psiquiátrico.
Ia dando o final de tarde, assim, às 18 horas e escurecendo, eu ia me arrepiando com medo terrível de como que ia ser aquela noite, porque eu não conseguia dormir. Então, foi bastante exaustiva e desesperadora. Mas eu tinha pessoas para me ajudar, 24 horas.
Contratei babá, enfermeiras. Eu podia pagar isso. Meus pais me ajudaram muito.
Quando o Cláudio precisava fazer plantão, eu ia para a casa dos meus pais e eles me ajudavam. Mas tinha noites, assim, que eu não dormia. E aí, quando chegava tipo seis da manhã, eu meio que largava o bebê na mão do meu pai.
Falava, pelo amor de Deus, cuida que eu não aguento mais. Chegava ao meu limite mesmo de físico e mental. Foi bastante, bastante cansativo.
Até o sexto mês, eu posso dizer que é... Se a gente não tem um suporte, a gente enlouquece. Essa é a verdade. E aí, depois, as coisas vão melhorando aos pouquinhos, lentamente, mas vão melhorando.
Melhorou muito mesmo, apenas depois dos três anos e meio. Aí, sim, eu consegui dormir uma noite inteira. Começar a dormir uma noite inteira, mas levou três anos e meio para isso acontecer.
Se eu me sentia dividida entre a medicina e a maternidade. Não, eu não me sentia, porque eu consegui ter seis meses de licença maternidade. Eu trabalhava na Marinha, nessa época, a gente chama que era a Mãe Marinha.
Eu fui militar. Então, eu tive toda a licença maternidade pela Marinha. Então, eu recebia bem, podia pagar as demandas que eu tinha com elas, porque alimentar dois bebês com fralda, com leite, né, fórmulas, não é fácil, e pagar a enfermeira.
E eu só trabalhava seis horas por dia, eu não trabalhava meio período. E eu sabia que no outro meio período, o Cláudio estava com elas, porque como ele é médico também, ele trabalhava quatro horas por dia. Então, sempre tinha um de nós dois com elas.
Então, eu ficava tranquila, eu não me sentia dividida entre a minha profissão e a maternidade. Ao contrário, eu consegui viver bastante esse período da maternidade, curtir cada momento, estar presente, me sentir presente, né. Foi bem, eu não tive esse sentimento de divisão e muito menos culpa por deixá-las.
Claro, a primeira vez que eu tive que ir trabalhar, eu lembro até hoje que eu dei carona pra faxineira, ela estava comigo, e uma delas estava chorando, e aquela coisa, né, de você ficar com o coração apertado, de ver seu filho chorando e você saindo pra trabalhar, eu não vou dizer que eu não tive esse sentimento, mas eu não me sentia culpada, não. Eu sabia que elas iam ficar bem, e a minha faxineira mesmo falou, não, fica tranquila, ela vai ficar bem. E é isso mesmo, cinco minutinhos depois, as crianças ficam bem sem a gente, né.
Basta que tem alguém dando o cuidado, o apoio, o aconchego. Então, eu não me senti culpada, não tive culpa.
Bloco 5, como foi criar duas meninas ao mesmo tempo, intenso e inédito, mas eu se me sentia literalmente com duas bonequinhas, e toda babá que vinha me ajudar, eu percebia a mesma coisa. Eu acho que é uma grande realização, quando a gente é criança e fica brincando de bebezinho lá com os bonequinhos, fingindo ser mãe, eu realizei as brincadeiras, eu gosto de dizer assim, era muito bom, era divertido, eu gostava de escolher as roupinhas, eu gostava do cheiro, eu gostava do banho, foi muito gostoso, muito gostoso, eu não sei nem que palavras usar, e eu sonhei que seriam duas meninas, eu tive esse sonho, Cláudio também, em sonho veio, antes delas nascerem, porque quando eu estava grávida, muitas pessoas diziam, ai, tomara que seja um casal, e eu também li um livro sobre, de uma estudiosa, uma pesquisadora, que o nome do livro é Criando Múltiplos e Gêmeos, então ela estudou durante longos anos mães e pais de gemelares, e principalmente com foco no aprendizado na escola, e eu li esse livro na época, e me identifiquei com muitas histórias do livro também, porque na lateral ela traz depoimentos dos pais, e esse livro me ajudou muito também a entender as dificuldades das pessoas dizendo, e o melhor, porque que eu trouxe o livro, porque o melhor par de gêmeos, são duas meninas, mais do que dois meninos ou um casal, por várias questões, então eu fiquei feliz da vida por isso, porque elas tem um perfil, as meninas tem um perfil mais tranquilo, mais fácil de lidar, claro que isso não é generalista assim, mas o comportamento dos meninos é mais expansivo, de buscar, mais de curiosidade, de aprontar, ficar, ser mais espoleta, não que menina não possa ser, mas elas tinham características que foi muito mais fácil lidar, sem contar essa coisa da possibilidade de arrumar, menino é mais, as roupinhas é mais shortinha, camisetinha e tal, e as meninas tem uma variedade imensa para arrumar, e possibilidades, é muito gostoso, foi divertido, me sentia numa brincadeira de criança, me sentia como se eu estivesse brincando de mamãezinha, e foi muito bom.
Bloco 5. Desde pequena, ela já demonstrava personalidades diferentes? Desde a barriga, ela já tinha um comportamento diferente, né? A Bia era mais quietinha, se movimentava menos, e a Laura se mexia, era mais agitada dentro da minha barriga. E quando nasceram, também foi assim, né? A Bia dormia mais quietinha, a Laura era mais agitada, demorava para pegar no sono, e com como eu definiria cada uma na infância, assim, desde bebezinha, a gente já escrevia essas características, e a Beatriz era mais voraz, assim, para comer, comia, adorava doce, só reclamava quando estava com fome, sempre levava as mãos no rosto, ela tinha uma voz mais forte, mais intensa, sensível a qualquer ventinho, era mais... Quando ela ia amamentar no seio, ela ficava com os olhos mais abertos. A gente fazia tratamento homeopático, então os medicamentos homeopáticos, eles lidam muito com a característica da personalidade das crianças, e uma das coisas que foi denso para mim foi que a Bia teve um probleminha, um sopro no coração, e a gente precisou ficar investigando, ela tomando remédio até os dois aninhos de idade, isso me deixava um pouco apreensiva, né? Ela teve persistência do canal arterial, tinha um pouco de repercussão, e ela chegou a perder um pouco de peso, mas com o tempo ela foi melhorando, e aos dois anos recebeu alta e, enfim, ficou bem.
Já a Laura era mais delicada, até no choro, a gente dizia que ela parecia uma gatinha chorando, era mais dorminhoquinha, gostava de se espreguiçar, soluçava com frequência. Quando ela fica com fome, ela ficava irritadíssima, a gente apelidou, minha mãe apelidou ela de esganiço, é um apelido engraçado, né? Ela tinha pesadelos, acordava assustada, chorando à noite, era muito, precisava muito da minha presença, mais insegura, o que mais? Enfim, ela era mais delicada, eu gosto de dizer a palavra assim, muito sensível a movimentos bruscos, mais dengosa, ela era muito sorridente, ela é muito sorridente, muito alegre, assim, tinha um sorrisão de encantar a gente, muito risonha, bom, enfim, tem milhões de características para falar delas, mas elas são muito diferentes, muito diferentes uma da outra.
Bloco 5, qual delas era mais sensível, mais expansiva, mais racional? A Laura é mais sensível, mas também é mais racional, tanto que ela gosta das exatas. A Bia é mais expansiva, mais extrovertida, tagarela, sempre cativava todo mundo quando chega no ambiente. As crianças adoravam ela, adoram até hoje.
A Laura é mais reservada, mais na dela, gosta mais da leitura, mais intelectual. A Bia precisa mais dessa convivência, mais extrovertida. Que memórias mais te emocionam quando pensa na infância delas? As memórias que mais me emocionam, meu Deus, tem infinitas, mas quando a gente foi agradecer a Madre Paulina, eu vi a minha filha com dois aninhos subindo todos aqueles degraus da escadaria lá da igreja, com o problema do coração resolvido.
Isso me encheu de alegria, uma memória muito positiva. Tenho memórias assustadoras, porque a Laura fez uma mastoidite, que depois de uma otite, quer dizer uma infecção grave, uma infecção de ouvido que vai para o cérebro. E eu não queria levar ela para o hospital, tratei em casa, passei duas noites inteiras acordada cuidando dela.
E as minhas amigas me chamavam de louca, enfim. Nossa, eu tenho infinitas memórias que me emocionam. Quando a Laura internou com uma... Acho que essa foi a mais dolorida, que ela internou para tratar uma artrite séptica.
E quando ela terminou a primeira dose do antibiótico oxacilina, ela fez uma reação alérgica anafilática. E foi super rápido. E, por sorte, a minha amiga que trabalha no hospital tinha ido visitar bem nesse horário.
A gente conseguiu reverter a reação rapidamente. Mas como eu tenho conhecimento e sei o que podia acontecer, uma parada respiratória, cardiorrespiratória em consequência. Quando eu pude vir para casa e meu marido estava indo lá justamente para poder trocar o turno.
Eu tinha ficado com ela e ia dormir em casa naquele dia. Meu Deus, foi uma intensidade... Eu não sei nem explicar o quanto eu chorei tomando banho pelo desespero da possibilidade de perder ela. De ela não ficar mais com a gente e ela poder ter tido algo grave.
Então, essa foi uma memória, assim, intensa de muita dor, de muita tristeza. E, ao mesmo tempo, de alegria de ter podido não ter acontecido nada grave. Mas tem as memórias boas da infância delas indo dançar no palco da escolinha.
As duas dançando, as duas tocando flauta. Infinitas. Sei lá, acho que eu podia ficar horas falando disso.
Bloco 5, houve alguma fase especialmente desafiadora? Sim, eu entendo que a fase inicial ali já começou tudo desafiante, né? 37 dias de UTI e depois os seis primeiros meses que eu achava que ia enlouquecer e até o terceiro ano de vida que eu não conseguia dormir uma noite inteira contínua, assim. Essas fases foram as mais desafiadoras. Depois eu posso dizer que foram mais tranquilas e realizadoras.
Você era uma mãe mais protetora ou mais livre? Com certeza mais protetora e hoje eu entendo que às vezes não foi tão positiva assim ser tão protetora, mas por sorte o Cláudio me contrabalanceava, assim. Enquanto eu queria proteger, ele queria soltar e a gente conseguiu equilibrar isso, né? Porque a proteção demais deixa os filhos inseguros e aí eu acho que a gente conseguiu. Mas eu era, eu queria dar a comida no horário certo.
A primeira briga minha e do Cláudio foi nesse sentido, porque a cada três horas eu tinha que alimentar e chegava final de semana eu queria seguir a rotina, porque elas precisavam. E até que ele olhou pra mim e falou, chega! Elas têm boca pra pedir comida. E isso doeu pra mim como uma facada, como se eu estivesse sendo assim, né? Eu me sentia ofendida e eu só tava querendo ser uma boa mãe.
E a gente passa por esses períodos, assim, de choque de realidade, né? E o Cláudio, tudo bem que ele podia ter falado com o maior jeito, mas foi um choque e me fez cair na real, né? Então, eu era mais protetora, com certeza eu era mais protetora.
Bloco 5. Como conciliava conhecimento técnico e instinto materno? Olha, isso foi uma dificuldade do cão, porque eu gosto de dizer assim, tem horas que a nossa ignorância nos protege do sofrimento, né? E ter o conhecimento técnico, isso exacerba o instinto materno, vamos dizer assim, né? Porque era muito difícil você não pensar no pior, então a mãe sempre quer proteger, leva no médico pra dividir essa responsabilidade com o pediatra, mas eu já sabia o que de pior podia acontecer, então eu sempre tendia a ir pra esse conhecimento técnico. E aí a vida, eu tive que ir aprendendo a lidar com a minha ansiedade e controlar o meu conhecimento e lidar mesmo com meus pensamentos, calma, você tem que ser mãe, você tem que estar aqui do lado, você não vai dar conta de tudo, você tem pessoas pra te ajudar, né? E sempre recorria as minhas amigas, a equipe médica, eu levava minhas filhas no pediatra, que é uma grande amiga minha, eu não dava conta de tudo, eu era a pediatra delas, eu não era, não fazia isso. Então, eu acho que eu conciliava dessa forma.
Eu ouvi de uma amiga, minha amiga dizendo, né, seja mãe, não seja médica, e isso foi me colocando no meu lugar de mãe e não de médica, mas é difícil, é difícil a gente deixar o conhecimento técnico de lado. E em algum momento precisou desligar a médica para ser apenas mãe? Sim, sim, sim, precisei desligar a médica para ser apenas mãe. É difícil, mas eu consegui, principalmente para os transtornos psiquiátricos, né? Eu tenho histórico familiar bastante positivo, eu já tive primos que tentaram suicídio, a minha mãe tem transtorno psiquiátrico bipolaridade, que não é um transtorno simples de tratar, e ela não se trata adequadamente, e eu identificava isso muito na Bia, por exemplo, e a Laura mais a ansiedade, e aí ter todo esse conhecimento psiquiátrico, e às vezes elas até se incomodavam um pouco, né? Tipo, mãe, para de diagnosticar e seja mãe, né? Eu só quero o teu consolo, eu não quero o teu conselho, ouvir isso delas.
Fui aprendendo com elas, na verdade, a ocupar o meu papel de mãe e deixar um pouquinho de lado a médica, a profissão, desligar a médica. Não dá pra virar a chavinha assim de uma hora pra outra, mas elas me mostraram muito isso, como que eu podia fazer isso, né? Ser só mãe e não ser médica.
Bloco 5, desligar a médica para ser apenas mãe, aqui pergunta-se em algum momento, e eu respondi de uma forma genérica, mas agora eu me lembrei de um momento que realmente eu senti isso, eu deixei de ser a médica para ser a mãe, foi quando a Bia entrou num quadro depressivo, ela começou a ter crise de ansiedade, começou a tirar nota zero na escola, coisa que nunca tinha acontecido, era sempre 8, 9, 10, e eu comecei a ver que ela não estava bem emocionalmente, que ela estava ficando muito deprimida, triste, e esse momento me tirou o chão, assim, porque eu não sabia o que fazer para ajudar ela. E aí, como eu falei antes, com histórico familiar muito grande de tentativas de suicídio, esse era o meu maior medo, eu tinha muito medo dela entrar num fundo do poço, assim, e não conseguir sair, e eu tive que recorrer, porque eu me dei conta de que é o que a mãe faz, né, uma mãe dá o suporte que o filho precisa, vai atrás do que ele necessita, e eu não estava conseguindo, eu não estava como profissional, como médica, eu não sabia o que fazer mesmo, então, nesse momento, eu acho que eu fui mais mãe do que médica. E o que a maternidade despertou em você como mulher? O que a maternidade despertou em você como mulher? Que pergunta, hein? Não sei nem o que responder.
Ela despertou em mim como mulher, porque eu acho que são papéis bem diferentes, né, ser mãe de ser mulher, mas eu acho que a mulher vem antes da mãe, né, a gente ser mulher. Então, eu acho que você realmente se transformar uma mulher quando você identifica que com a maternidade você para de olhar para sua mãe como mãe e passa a olhar para sua mãe como mulher também. Então, somos todas mulheres, e eu só consegui enxergar para minha mãe como mulher, e não como a minha mãe, ter queixas dela, reclamar do que ela deixou de me dar, do como ela foi, das dificuldades dela, e eu odiava a minha mãe, eu tinha um sentimento de ódio, e eu pude voltar a amar a minha mãe depois que eu fui mãe.
Então, graças a minha maternidade, eu consegui me reconectar com a minha mãe e conseguir sentir algo positivo por ela, porque eu não sentia, eu só tinha ódio no meu coração, e a maternidade me trouxe isso, eu pude me transformar na mulher de verdade, parar de mimir, de reclamar da minha mãe e me tornar mulher de verdade, dar o que eu precisava, o que eu não tive na infância, o que ela não conseguiu me dar por motivos dela, da história dela, por ela ser outra mulher como eu, com as falhas que ela tem, enfim. E eu acredito que a maternidade é que me trouxe isso, eu me transformar numa verdadeira mulher, e parar de reclamar da minha mãe, e olhar pra minha mãe como outra mulher, e poder amá-la de novo.
Bloco 5. Você acredita que as filhas transformaram sua forma de amar? Definir o amor, como que a gente ama, né? É difícil, mas eu acredito que elas transformaram, sim. Porque eu não conhecia esse sentimento, né? Eu não conhecia como era sentir o amor de mãe pelos seus filhos. E acho que a gente tem vários tipos de amor, né? A gente ama nossos pais, ama nosso esposo, nosso companheiro.
Mas amar os filhos, ter esse sentimento de alguém que você gerou, trouxe ao mundo, que veio de uma união, né? Também, assim, tão intensa quanto foi comigo e com o Cláudio. A gente lembra do ato sexual em si, de como que foi o orgasmo no momento, como eles foram intensos. E a gente olhou um para o outro e falou que realmente, que realmente podia nascer alguém dali, né?
Bloco 5, qual foi a maior lição que aprendeu sendo mãe? É a doação. E doação pra mim significa você dar sem ter expectativa de receber algo em troca, sem condição, não tenho se. Você faz porque você ama, porque você se doa, você dá para os seus filhos sem ter essa expectativa.
É claro que é maravilhoso quando vocês escutam Eu Te Amo Mãe, mas a doação pra mim é a lição. A gente dá sem criar a expectativa. Eu tô fazendo isso, eu faço por elas, eu me dou, dou o meu tempo, dou a minha saúde, dou o meu tempo, que é o mais precioso, que é o que mais eu vejo as mães terem dificuldade hoje em dia, dar o nosso tempo de qualidade, a nossa presença genuína e sem ter expectativa de que vai ter algum retorno ou você cobra isso deles, né? Eu acho que essa é a minha lição da maternidade, que eu aprendi sendo mãe.
Bloco 6. Como foi acompanhar a adolescência das filhas sendo especialista justamente nessa área? Foi desafiador, porque o que eu acredito é que a gente precisa agir igual ao nosso discurso. O que eu penso, o que eu falo, é o que eu faço. E muitas vezes a gente tem um discurso que tem que dialogar, que tem que ter paciência, que não tem que gritar, mas nós somos humanas, mães humanas, igual a qualquer uma, e a gente erra, a gente erra.
E eu passei por essas dificuldades também de não saber o que falar no momento adequado, de perder a paciência, mas tendo a consciência, tendo a clareza, o conhecimento técnico, que é o que eu tenho, me abriu muitas portas. Eu tive muito mais facilidade de acertar a rota, de acertar o caminho, e a gente ser companheira mesmo, conseguir ser parceira, conseguir transmitir a confiança que as minhas filhas precisavam para poder conversar comigo. Isso tornava as coisas mais fáceis ou mais intensas? Muito mais intensa, porque quando a gente tem mais consciência, você tenta fazer melhor, e quando a gente tenta fazer cada vez melhor, isso te exige mais clareza, mais consciência, mais dedicação.
Eu gosto de dizer assim, é um esforço mental e diário a gente saber se relacionar, se comunicar com os nossos filhos e com qualquer que sejam as pessoas.
Bloco 6. Você sentia mais responsabilidade como mãe? Sim, me sentia muito mais responsável porque a gente, exatamente por isso, porque quando você sabe que tem maneiras técnicas que você pode usar e que eu ensino, né, eu falava para outras mães o que elas precisavam fazer e como que eu não consigo fazer, né, muito pelo contrário, tem que viver na prática o que eu digo para ser feito e principalmente na relação com o pai, sabe, eu acho que a maior dificuldade para mim foi fazer o meu marido entender que as nossas filhas tinham entrado na adolescência, que ele precisava tratar elas diferente, porque ele continuava tratando como criança e aí quando a gente ia conversar isso gerava discussão porque na visão dele eu era permissiva e na minha visão ele era autoritário, então para eu conseguir fazer esse ajuste, né, me sentia muito mais responsável, sim, foi mais pesado. Como era o diálogo dentro de casa? Acho que já comecei a responder isso também, né, a gente conseguia conversar bastante, aqui a gente sempre falou tudo que pensa, isso que é uma coisa que muitas famílias têm velada, né, aí tem coisas que eu não posso falar na frente do meu filho e as mães têm muito isso, né, a gente sempre falou tudo que pensou mesmo que doesse, mesmo que fosse algo duro, com muito respeito, isso que eu acho que é o importante, tem a hora para falar, tem um momento de falar, às vezes a gente xinga ou explode na hora que não deve, depois a gente conversava, pedia desculpa, reconhecia o erro, né, e ajustava esse diálogo, então sempre tivemos muito diálogo de liberdade para falar tudo que pensa e acho que isso é fundamental no relacionamento. Se a sexualidade era um tema natural entre vocês, sim, né, eu achei uma forma de mostrar para elas que eu estava disponível para conversar sobre esses assuntos, eu comprei um gelzinho, né, de lubrificação, deixei na cabeceirinha de cada uma delas e elas vieram me perguntar o que era, na idade que eu achei que era apropriado, né, que elas já estavam começando a se interessar e falei, olha, isso é para nossas descobertas íntimas e se vocês quiserem conversar sobre esse assunto, a mãe está aqui disponível para isso, e aí a resposta, a reação foi a que a maioria dos adolescentes faz, ah, não, não preciso disso agora, não é agora, blá blá blá, mas logo um tempinho depois me procuraram e a gente pôde conversar sobre tudo, né, e muito legal porque a devolutiva delas foi de se dar conta que as amigas não tinham esse tipo de diálogo com a mãe e vir agradecer e até reconhecer, né, falar, mãe, as minhas amigas não falam disso com as mães delas e isso é muito gratificante, né, você poder conversar sobre tudo com as suas filhas, orientar, dar o caminho, né, e foi muito bom, sempre conversamos sobre isso, acho que esse é um dos grandes diferenciais na minha vida com elas.
O bloco 6, sexualidade era um tema entre nós, já respondi. Elas recorriam a você para conversar sobre dúvidas e sentimentos? Sempre, sempre vinham me perguntar, a gente sempre conversou sobre o que estava sentindo, eu tive uma filha que teve aproximação com uma outra amiga, que ela estava em dúvidas sobre os sentimentos, sempre teve liberdade e se sentiu à vontade elas para conversar sobre dúvidas e sentimentos, eu sempre acolhi, né? Dizer tá tudo bem, é assim mesmo, pode viver essa experiência, não tem problema nenhum, eu acho que dá o apoio, nosso apoio nesses momentos e não ficar com medo, com medos infundados, é uma descoberta dos sentimentos afetivos e elas puderam vivenciar cada uma do seu jeito. Existiram conflitos típicos da adolescência? Sim, existiram conflitos típicos, um deles foi esse, né? De quem eu gosto, se eu tô gostando do mesmo sexo ou se não, se eu posso sentir isso ou não, se tá tudo bem comigo, eu tenho dificuldade de fazer amizade, será que é assim mesmo, porque que isso acontece comigo, eu sinto raiva, né? Todos os sentimentos puderam ser trabalhados, conversados, acolhidos, muitas horas de tipo, mãe pode vir aqui no quarto para eu conversar e lá vou eu, sim, conversar, escutar mais do que falar, né? Porque é isso que eles precisam, que a gente escute mais do que dê conselhos e esses conflitos de todo adolescente também existiram aqui na minha casa.
Bloco 6. Como você lidava com limites e liberdade? Bom, uma delas gosta bastante de sair, né, por exemplo, a outra já é mais caseira. Então, para dar o limite, eu não tive muito problema, porque ela vinha me perguntar se podia ir em tal lugar. Eu perguntava qual lugar, com quem, que horas, como volta.
E se eu achasse que não era o momento ainda, eu dizia que não. E como elas já, desde pequenas, me obedeciam, né, elas recebiam ou não e aceitavam, e era respeitoso dessa forma. Claro que elas não ficavam contentes, ficavam um pouco tristes, chateadas, mas não tinha bate-boca, não tinha... Era muito respeitoso, os limites foram dados, era confiado que eu sabia o que era melhor, né.
E, então, a liberdade é a mesma coisa. À medida que elas iam sendo responsáveis, iam para os lugares e me respondiam, e mandava mensagem como combinado. Não vou dizer que foi tranquilo, eu havia mais voada, vamos dizer assim, esquecia de mandar as mensagens e tal.
Mas eu sempre confiei muito, né, não tinha mentira. Então, onde ela dizia que ia, ela ia. Então, tinha regras, e as regras eram cumpridas.
É claro que eu precisava ficar fazendo o meu papel, supervisionando, né. Supervisionando, pedindo, chamando, mas nunca precisei me desgastar para isso. Então, os limites eram claros, e aí elas podiam exercer da liberdade delas, da forma que elas desejavam, vamos dizer assim.
Em algum momento eu percebi que precisava ouvir mais do que orientar? Sempre, sempre. Acho que a adolescência é um momento que a gente mais precisa ouvir do que orientar. A orientação, ela vem depois que a gente ouve o que passa pela cabeça deles, né.
O que eles estão entendendo da situação, o que eles estão sentindo da situação. Então, para o adolescente, se eu, adulta, não entender o que se passa na cabeça deles, vai ficar difícil de eu orientar. Então, eu sempre parti desse princípio, que eu precisava ouvir mais do que falar.
Às vezes, a gente quer solucionar problemas deles antes mesmo que eles te peçam isso, né. Mas aí, quando você tem essa consciência, você respira, segura e não dá a resposta. Deixa que eles descubram.
Isso é o melhor. E eu consegui desenvolver isso, essa habilidade, né. Eu digo que a gente tem que treinar, tem que treinar.
Não foi de um dia para o outro, mas eu já sabia que era melhor dessa forma, então eu me eduquei para isso.
O bloco seis, o que mais te surpreendeu na geração delas? Eu acho que o que mais me surpreende é a abertura de experimentar possibilidades, né? Eles têm mais abertura de testar mesmo, ficar menina com menino, têm mais abertura de aceitar as diferenças, de debater sobre as diferenças. Mas também me surpreende a dificuldade em se relacionar presencialmente, né? Ficar muito no mundo virtual, mesmo estando juntas ficam no celular, né? Mesmo estando presencial, isso é algo que me surpreende, me assusta até. As redes sociais mudaram a experiência dos adolescentes? Acho que essa já entra, né? Com essa pergunta entra nessa também, porque realmente as redes sociais fazem com que eles se desconectem da vida real, da vida presencial, né? Fica muito só online, não curte o momento de estar junto, as conversas, de ficar conversando, né? Querendo postar, filmar para poder postar e mostrar uma coisa meio fantasiosa, eu penso, né? Fica muito fora da vida real, isso ainda é algo que me surpreende nessa geração.
Bloco 6, como você observou isso dentro da própria casa? Vendo o comportamento delas, né? Eu consegui demorar pra dar o celular. Elas tiveram apenas aos 12 anos, né, que já eram... Todas as amigas tinham, mas elas não. E claro que quanto mais tarde, eu acho melhor.
Mas elas tiveram aos 12 por uma necessidade da mudança de escola, de ficar longe e a gente precisar combinar pra ir buscar. Mas sempre foi supervisionado, conversado, orientado. E mesmo assim, teve um momento de preocupação grande, intensa, porque mesmo tendo orientação, a Bia fez, por exemplo, uma conta no Facebook sem autorização, sem que eu soubesse.
E aí teve uma experiência ruim, porque falaram dela e usaram a imagem dela, e eu acabei ficando... Eu soube através de uma amiga que avisou. Foi uma experiência bem traumática, mas ela aprendeu, né? Ela aprendeu porque ela fez algo que era proibido, que tinha sido alertada. E isso foi um momento de bastante preocupação, porque eu já tinha orientado e mesmo assim ela fez algo inocentemente, né? Como adolescente, inocente, se colocou no risco e viveu essa experiência ruim.
Mas... Faz parte, faz parte do aprendizado errar, né? Se não tivesse errado, não aprendia e talvez não soubesse se preservar mais no futuro.
Bloco 6. O que você mais admirava nelas durante a adolescência? Na Bia, vaidade. Ela sabe ser feminina, tem o cuidado da maquiagem, dos cremes, cuidar com o visual, pele, cabelo, unhas, e algo que eu nunca fui muito vaidosa e aprendi com ela, e eu admirava isso. Admiro até hoje.
E já com a Laura, a leitura, perguntas inusitadas, que eu nem imaginava, o bom humor, ela tem um bom humor. Então, isso eu admiro. E momentos que eu percebi que elas estavam se tornando mulheres, principalmente quando começaram a pedir minhas roupas, querer dividir as roupas, querer ver que elas já estavam com o corpo adulto, apesar de ainda não estar totalmente amadurecida, mas enxergando já uma mulherzinha nelas.
Então, esse momento foi, pra mim, caiu a ficha nesse momento. Quando começou a usar minhas roupas, meus sapatos, aí meio que foi um choque de realidade. Elas cresceram, são mulherzinhas já, já estão grandes, não é mais a mamãe com as filhinhas, são outras mulheres, com opiniões, com desejos e com o desejo também de entrar na faculdade, ter a profissão, não ver mais aquela coisa da escola, ser mais independente, buscarem as suas matrículas, vamos fazer o vestibular e tal.
E eu não fiz nada pra isso, foi uma iniciativa delas. Então, acho que olhar pra isso, olhar pra esse movimento, foi ver que elas estavam mulheres.
Bloco 6. Como cada uma viveu a fase da adolescência de maneira diferente. A Bia mais expansiva, mais para os amigos, para as amizades, mais distante da família, sempre envolvida com festas, música. Já a Laura mais caseira, mais da leitura, mais parceira com a gente, fazia as coisas juntas.
Ela fazia natação com o pai, agora faz musculação comigo. Dessa forma, cada uma do seu jeitinho. E existe alguma conversa inesquecível entre vocês? Eu acho que quando elas estavam descobrindo, conversando sobre sexualidade, uma conversa que eu nunca vou esquecer é o dia que elas me perguntaram qual posição que eu gostava de transar.
E foi uma pergunta inusitada, mas com a abertura que a gente tinha, eu esperava que um dia isso pudesse acontecer. E aí a gente precisou pontuar que até um certo ponto a gente pode ter intimidade, conversar, mas que isso dizia respeito a uma privacidade minha, uma intimidade minha, que não tinha necessidade de elas saberem sobre isso, assim como eu não ia precisar saber delas. Então, a gente tinha inusitado o tipo da pergunta, qual a posição.
Então, foi inesperado para mim e eu acho que isso vai ficar na minha cabeça para sempre, essa conversa, mas foi muito gostosa, foi tranquila, elas entenderam, ainda estavam descobrindo, não tinham tido muitas experiências ainda, inclusive a Laura ainda não teve, só quem teve foi a Bia, mas essa conversa vai ficar para a história.
Bloco 6. Qual foi o momento mais emocionante da maternidade até hoje? Eu acredito que o que eu mais me lembro de que me emocionou muito foi quando eu tive as duas no seio ao mesmo tempo, que a gente colocou as duas para mamar e ficaram no meu colo para a gente conseguir assistir um filme de duas horas juntos, que isso era muito difícil. E ter as duas ao mesmo tempo no seio foi incrivelmente emocionante, uma sensação muito louca ter dois bebês ao mesmo tempo. Eu acho que isso me marcou profundamente.
O que suas filhas te ensinaram sobre juventude contemporânea? A juventude de hoje, para mim, o que elas me ensinam é aprender a viver com as suas diferenças. Acho que a juventude de hoje sabe viver isso de uma forma melhor do que a gente vivia. Acho que se a escola trabalha bem isso, se trabalhar bem a inclusão, os jovens de hoje estão muito mais abertos para isso do que na nossa geração.
Então, acho que elas me ensinam isso. E como é a minha relação com elas hoje, é muito positiva, de parceria, de cumplicidade, de torcer uma pela outra. Elas ainda me têm uma orientação, me perguntam as dúvidas delas, se podem, se devem, o que eu acho.
Então, elas se importam com a minha opinião. Elas já têm 19 anos, podiam fazer o que quisesse, mas ainda pedem a minha orientação. E é isso.
Bloco 6, o que mais te orgulha nas mulheres que elas se tornaram? O que mais me orgulha é ver o quanto eu tenho um pouquinho de mim nelas, o quanto eu me identifico em cada uma delas, mas o que me orgulha é elas irem atrás do sonho delas, fazer o que elas acham que é importante. A Bia, por exemplo, cantar, estar no ramo da música, poder realmente viver algo que é um desejo dela, e ir atrás desse sonho. E a Laura, a mesma coisa, ela está às exatas, é mais econômica, tem uma relação com dinheiro a longo prazo, pensa no futuro, e me orgulha muito elas poderem viver, ir atrás, batalhar pelo sonho delas, sem se sentir influenciada por mim ou pelo pai.
E existe algo que você gostaria que elas soubessem profundamente sobre você? O que eu gostaria profundamente que elas soubessem de mim foi a minha experiência traumática em relação ao sexo, a sexualidade lá, o estupro e abuso, isso a gente conversou, elas já sabem, mas não tem nenhum segredo, não tenho nenhum segredo profundo sobre elas, mas o que eu gostaria que elas soubessem, eu falo isso para elas, que elas sempre tivessem muita certeza do meu desejo em trazê-las ao mundo, o quanto eu sou realizada na maternidade, o quanto elas me deram essa oportunidade de ser mãe, e isso é o que eu mais quero que elas guardem profundamente sobre mim, que nunca duvidem disso.
Bloco 7, trajetória profissional, como foi construir sendo mulher e mãe. Como eu falei, eu fui uma médica que pude trabalhar, já era mais madura, já era mais velha, trabalhava só seis horas por dia, consegui uma licença maternidade de seis meses, então ia segura porque metade do período eu sabia que elas estavam com o pai, porque ele trabalhava só meio período, então foi muito gostoso. Como mãe eu me sentia segura e como mulher a gente sempre preservava um momento para o casal, eu e o Cláudio a gente costumava ir no motel, porque eu tinha dificuldade de ter relação com elas em casa, qualquer barulhinho me tirava, altezao, então a gente criou o hábito de ir para um motel, ter o nosso momento, de sair nós dois, então a gente sempre preservou, sempre consegui conciliar as duas coisas, mas foi difícil voltar, desconectar da mãe para ser mulher, principalmente como esposa e curtir o momento do casal, e aí a gente achou essa estratégia, de sair de casa, ficar longe delas, então contratava uma babá e tinha o nosso tempinho.
Em algum momento sentiu que precisava ser mais forte do que realmente era? Sim, nos primeiros meses eu achava que não ia dar conta, eu achava que eu era forte, mas mesmo assim eu ouvi uma vez do Cláudio dizendo para mim que ele não tinha brincado de boneca, quando nós dois estávamos estafados de noite e eu tive que ficar, porque você não vai abandonar o bebê, então nesse dia eu tive que ser muito forte, porque eu estava no meu limite, não tinha o apoio dele, porque ele também tinha dito que não dava mais, e eu precisei superar todo o meu limite, todo o meu cansaço, meu sono, e foi desesperador, eu achava que eu não ia dar conta, então eu tive que ser muito forte. Então, esse momento, e isso em relação a elas, mas em relação à profissão, quando eu fui para São Paulo, que eu fiz o meu primeiro plantão, vou contar isso no outro áudio.
Bloco 7. Qual o momento que eu precisei ser muito mais forte do que realmente eu era em relação à profissão, que eu me desfoquei e fui para a maternidade de novo. Mas foi quando eu fui para São Paulo fazer a medicina do adolescente. Eu não tinha dinheiro nenhum para me manter lá, só o primeiro mês.
E fui numa época difícil de emprego, que a gente trabalhava e foi na época do Maluf e não estavam pagando. A gente não tinha certeza se ia conseguir receber o dinheiro do trabalho. Então, eu estava num momento bem instável.
Ao mesmo tempo que eu fazia a residência da adolescência, eu tinha que trabalhar para me manter lá. E eu fui trabalhar num hospital em Suzano. Eu tinha que acordar às 5 da manhã, pegar metrô, depois pegar mais meia hora de metrô, mais uma hora de ônibus para chegar nesse hospital.
Um hospital que só tinha um pediatra. Eu tinha que atender emergência, sala de parto, intercorrência na enfermaria. E foi muito desgastante.
Eu lembro o último dia que eu fui fazer plantão nesse lugar. Ainda teve uma criança que nasceu mal e acabou falecendo. Foi muito pesado.
Levou no meu limite emocional. Eu desenvolvi durante os plantões nesse hospital, que era o único lugar onde eu conseguia um emprego. Eu tinha que ter o dinheiro para pagar o aluguel onde eu estava morando.
E eu desenvolvi uma urticária. Eu tinha coceira no plantão. Eu não conseguia dormir, ficava me coçando.
Primeiro eu achei que era pulga, depois eu achei que era alguma coisa de sabonete e da roupa de cama. Depois eu entendi que era psicológico. Que eu estava somatizando um grande estresse.
Então, esse período foi um momento que eu realmente tive que ser mais forte. O período mais difícil da minha carreira, acho que foi esse. Quando eu fui para São Paulo fazer a medicina do adolescente.
Eu tive alguns outros momentos, que foi quando eu estava me separando do primeiro marido. Eu separei três vezes antes da terceira definitiva. E eu estava no meu mestrado, fazendo o mestrado, lá em São Paulo também, na UNIFESP.
E eu não conseguia parar de chorar, por causa da separação. Eu fiquei instável emocionalmente. O meu terapeuta até resolveu me medicar, usar medicamento.
Eu tinha um pouco de resistência. E eu tinha que defender o mestrado e eu não conseguia. Chorava na frente dos adultos, dos meus orientadores.
E aí, claro, com a medicação isso passou. E eu consegui superar e defender o mestrado, que eu queria tanto. Mas aí eu decidi não continuar.
Eu ia continuar, já estava com tudo engatilhado para o doutorado. Já tinha feito as disciplinas necessárias, porque eu fiz muita disciplina no mestrado. E eu já podia continuar no doutorado e resolvi parar.
Bloco 7. E o período mais gratificante, olha, o período mais gratificante pra mim é conseguir ensinar os alunos de medicina a atender adolescente. Cada vez que eu faço avaliação do estágio, que eles me falam que eles conseguem atender o adolescente de forma mais segura, conseguem se comunicar, fazer ligação, porque é uma população extremamente diferenciada pra gente atender, no mundo médico não se tem essa formação. Na universidade mesmo onde eu trabalho, eu sou a única pessoa que faço isso, então pra mim é muito gratificante saber que eu tô conseguindo levar esse conhecimento, esse atendimento dos adolescentes adiante, porque eu realmente acredito que a gente faz diferença na vida deles.
Qualquer profissional que atender com uma intenção e sabendo, com técnica, vai influenciar a vida desse adolescente pra melhor no futuro. E pro futuro dele ser diferente. Então isso me gratifica muito e eu vi ter o feedback dos próprios pacientes querendo passar comigo, se identificando comigo, tendo essa clareza da vida deles, diminuindo a angústia e fazendo a aproximação dos filhos das mães com seus filhos.
É muito gratificante ver quando existe um cabo de guerra entre eles e de repente isso some. Então isso me gratifica profundamente. Existe algum paciente que transformou a sua maneira de exercer a medicina? Algum paciente, não alguns pacientes.
Eu acho que a gente vive aprendendo, mas principalmente quando eu lido com pacientes que tem transtornos psiquiátricos, transtorno da saúde mental, porque tem poucos especialistas que sabem atender a demanda do adolescente, principalmente nas questões mentais e a grande barreira é a aceitação dos pais. Os pais têm muita dificuldade de aceitar e enxergar os seus filhos do jeito que eles são, do jeito que eles funcionam. Então é muito delicado esse momento de dar o diagnóstico e eu tive uma mãe que eu atendi um garoto que a queixa era que ele não fazia amigos e ele tinha um transtorno espectro-autista muitos anos atrás, antes dessa época que nem se falava tanto no TEA, e a queixa dela era essa, era uma mulher com um bom... ela era promotora, tinha um bom conhecimento, vamos dizer assim, e eu não esperava a reação de negação dela.
Eu não firmei o diagnóstico, porque na época eu não tinha tanta segurança, encaminhei para o neurologista, mas ela não aceitou e isso foi algo que me entristeceu muito, porque eu sei que o filho dela vai demorar mais para se desenvolver justamente por causa da negação. E aí eu mudei a minha forma de abordar essas questões. Eu tenho todo um cuidado de captar o momento que essa mãe está, como que traz o transtorno, como que a gente fala dele e vou trabalhando a aceitação, vamos dizer assim, porque eu sei que se os pais não aceitam, eles não vão olhar para a necessidade real dos seus filhos.
Bloco 7, como que eu lido emocionalmente com histórias difíceis? Eu me cuido, eu me cuido, eu faço terapia, eu faço grupo de terapia, eu faço meditação, eu faço respiração, eu tento já separar que eu não consigo salvar o mundo, que não são todos os adolescentes que eu vou conseguir realmente mudar a vida, fazer a vida... eu atendo muitas histórias difíceis, muitas, mas eu tenho muita clareza de que o espaço que eu dou no meu atendimento, de escuta, já ajuda muito esse adolescente. Então, eu lido com a história triste, vamos dizer assim, sabendo que o pouco que eu estou dando, apesar de parecer pouco, é muito para aquele adolescente, e aí eu fico bem, e aí eu me sinto bem. O que mais me toca no sofrimento dos adolescentes é a falta de compreensão dos seus pais para esse momento de vida.
Os pais ainda enxergam os filhos com muitas críticas, com muitas reclamações, tem muita dificuldade de se colocar no lugar do adolescente, de entender que ele ainda precisa da maturidade do pai e da mãe, e a maturidade em saber dar limite, saber conversar e lidar diferente de como era quando criança, porque parece que os pais continuam enxergando uma criança. Então, eu gosto de dizer assim, cortar o cordão umbilical da mãe é muito mais difícil do que do adolescente, e é muito mais tranquilo lidar com os adolescentes do que com os pais do adolescente, porque o adulto demora mais para ter clareza, enxergar, ter consciência e mudar o seu comportamento. Então, o que mais me toca é isso, a falta de aceitação dos pais de como os seus filhos funcionam, de como eles são e quais as necessidades que eles têm.
Bloco 7, se eu já levei histórias do consultório para casa emocionalmente, sim, muitas, muitas vezes. Acho que o fato de eu e o Claudio sermos médicos, a gente comenta, a gente pergunta como foi o dia e quando tem algum caso que me mobiliza muito, a gente acaba comentando a mesma coisa a ele. E, às vezes, eu pergunto para as meninas, eu pergunto para elas, para as minhas mocinhas, o que elas sentiriam, como que seria, troca um pouco essa realidade da história, ou às vezes da mãe que não aceita, como é difícil, como é triste, e elas se solidarizam porque elas entendem o quanto o adolescente sofre.
Como que eu aprendi a criar limites? Para pediatra é bem complicado, né? Limite, dar limite para as mães, que hora que você lida. Eu atendo em psicoterapia também, então, às vezes, você está com uma adolescente com ideação suicida, e aí a gente tem que estar disponível para esse adolescente em qualquer horário, mas a gente precisa saber dar o limite, porque senão ele é ultrapassado mesmo. As mães ligam a hora que elas querem, os adolescentes também, e aí a gente precisa dar o limite.
Eu deixo claro as regras, olha, só pode ligar nessas situações, eu vou responder desse jeito, né? E, algumas vezes, a gente ainda acaba ficando muito disponível atualmente, principalmente por causa do WhatsApp, né? E aí as mães acham que a gente está, com o tempo todo, disponível a toda hora. Então, eu preciso pontuar, né? Se está na hora de marcar nova consulta, eu aviso, agenda a consulta para a gente conversar, não fico fazendo a teleconsulta por WhatsApp, né? Mas, algumas vezes, a gente ainda se perde nesses limites.
Bloco 7. Existe alguma situação profissional que mudou sua vida? Que mudou a minha vida, eu não me lembro, assim, mas o que me veio na cabeça foi a época que eu trabalhei na Marinha. Quando eu trabalhei na Marinha, eu fui no meu limite físico. Eu tava num estresse emocional muito grande, que eu tinha acabado de me separar, né, eu tava em separação do primeiro casamento e eu tinha voltado de São Paulo pra Florianópolis.
E eu consegui um trabalho como pediatra nas Forças Militares da Marinha, aqui no Estreito, em Florianópolis. E eu atendia os filhos dos militares e tudo. Mas o treinamento militar e usar farda, marchar, isso foi algo que eu nunca tinha vivido antes e que me ajudou, eu era muito crítica e eu tive que ficar respondendo sim, senhor, e não contestar os meus superiores, né, fazer o que me mandavam, mas pra mim isso mudou um pouco, eu ter mais clareza do que é disciplina, hierarquia, né, que são os valores das forças militares.
E chegar no meu limite físico, né, eu fiz o treinamento físico, eu fiz uma lesão no joelho, a primeira vez que eu tive uma lesão no joelho, porque eu já operei os dois joelhos, e isso me mudou. Mudou eu entender melhor essas questões da marinha e mudou a minha vida, de ter a disciplina, de entender a prioridade da hierarquia, né, que a gente tem que dar o limite, né, é muito, as forças militares me trouxeram mais clareza com relação a isso e acho que mudou a minha vida nesse sentido. E foi, fez parte da minha trajetória como médica, né.
O que eu considero de maior conquista profissional? Minha maior conquista profissional não foi o mestrado, né, que é um título, mas foi triste pra mim isso, porque identificar isso que eu achei que a gente, né, mudava as coisas, mas ficou algo no papel mesmo, algo de teoria. Agora, que eu fiz, pra mim a grande conquista é poder ter um capítulo no livro, né, no Tratado de Pediatria, que é o livro referência para os pediatras. Eu fiz parte do Departamento de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, só oito médicos fazem parte a cada mandato e eu fui um dos membros, né, principalmente na época da pandemia.
Eu ajudei a construir muitos documentos científicos naquela época e pra mim é um orgulho, é um orgulho, uma grande conquista ter participado da Sociedade Brasileira de Pediatria e ter esse capítulo, um capítulo escrito sobre o exercício da sexualidade no Tratado de Pediatria, um livro que todos os pediatras usam.
Bloco 7, e sua maior conquista humana? Para mim, minha maior conquista humana foi ter filhas gêmeas. Eu achava que não podia ter filhos, tive cinco abortos e eu consegui engravidar espontaneamente de filhas gêmeas. Eu vou lá duas vezes, para mim isso é uma conquista nem humana, é sobrenatural para mim.
Alguma força divina, sei lá qual do universo, qual que seja, fez essa ovular duas vezes, para mim isso foi a maior conquista humana. Você acredita que a sua profissão também te curou em alguns aspectos? Sim, eu acredito que a medicina cura, porque a gente trata das mazelas do ser humano, da dor do ser humano, do sofrimento, e sim, eu acredito que me curou nos meus aspectos, nas minhas dificuldades. Sempre veio entendendo melhor o ser humano, como a gente funciona, e isso me ajudou a me regular emocionalmente, amadurecer, evoluir, me exigiu mais.
E entender sobre estresse pós-traumático, por exemplo, que foi algo que eu vivi, ter essa clareza, saber como que nossa mente funciona, e isso tudo veio por causa da minha profissão. Não sei se eu estivesse em outra profissão se eu teria me curado desse estresse pós-traumático. Então, acredito que sim.
Bloco 7, como eu lido com a responsabilidade de orientar famílias? É uma baita de uma responsabilidade mesmo, mas eu tenho uma clareza assim, eu lido da seguinte forma, eu entendo que cada família tem as suas regras, as suas crenças, e que elas vieram buscar de mim conhecimento, e eu dou o meu conhecimento, mas a responsabilidade de fazer diferente, de agir, continua sendo da família, eu não consigo mudar a realidade deles, porque eu não estou na casa, dentro das famílias. Então, a minha clareza de respeitar, respeitar isso, respeitar a crença de cada família, o que ela vive, desde que não seja algo que eu precise, eticamente, legalmente, principalmente pela lei, interferir, fazer uma notificação compulsória, eu respeito, eu respeito as regras da família, as crenças, e sei até onde é o meu espaço. Então, é uma grande responsabilidade, mas eu ofereço o que eu tenho para dar, e eu entendo que as pessoas ficam com o que elas preferem, e se elas não se identificam comigo, tá tudo bem, podem buscar outro profissional, eu entendo dessa forma, não vou agradar todo mundo, eu vou agradar quem se identificar comigo.
Então, é uma responsabilidade que eu compartilho com as famílias, olha, meu caminho é esse, se você não tá de acordo, se não tá bom pra você, tem toda a liberdade de procurar outro profissional. Então, eu exerço a minha responsabilidade de orientar as famílias com o máximo de conhecimento que eu tenho, dando o meu melhor, eu tenho a minha consciência tranquila, eu faço o que eu tenho de melhor, e isso me deixa tranquila com a minha responsabilidade.
Bloco 7, o que mais me preocupa nos jovens atualmente é viver a vida no virtual. Eles estão deixando de viver no presencial, mesmo quando eles estão, entre eles, presentes, estão conectados no celular, né? Então, eu acredito que a gente precisa criar ambientes onde eles possam realmente se desligar do mundo virtual e proporcionar esses espaços, porque eles estão tendo dificuldades de habilidades sociais. O que isso significa? Habilidade de se relacionar, de conversar, de fazer amigos, se relacionar, inclusive, afetivamente, né? Estão tendo dificuldade e isso me assusta, porque hoje em dia, com as IAs, né? Eles estão cada vez mais no mundo virtual e uma IA vai falar exatamente o que o adolescente quer ouvir.
Diferente de um ser humano de verdade. Então, perder o tempo de vida. Eles estão perdendo o tempo de viver e isso é doloroso demais.
Eu acho que a gente precisa tomar uma atitude em relação a isso. E o que mais me dá esperança, o que mais me dá esperança é acreditar que a gente pode mudar essa realidade. A gente pode mudar essa realidade e isso é uma das coisas que eu tento fazer, né? Com as oficinas presenciais, por exemplo, é um dos meus objetivos.
Não sei se eu vou conseguir alcançar, mas essa é a minha esperança. Eu acho que a gente pode mudar a realidade. A gente devia estar dentro das escolas, o pediatra devia estar dentro das escolas, dentro da UBS, do Programa da Saúde da Família.
Políticas, né? Mudar as políticas atuais e ter essa integração entre saúde, escola, família. Eu acredito muito nisso. Saúde, escola, família.
A gente tinha que estar unido, unindo forças e não cada um no seu lugar.
Bloco 7, como você gostaria que sua atuação profissional fosse lembrada? Eu gosto de dizer que o médico do adolescente, ele acolhe a adolescente. Essa é a melhor definição que eu dou para a medicina do adolescente. Mas como eu gostaria que a minha atuação fosse lembrada, eu gostaria que eu fosse lembrada por mudar a cabeça das mães.
Que as mães pudessem olhar para os seus filhos, independente de diagnóstico que fosse, que elas aceitassem o funcionamento dos seus filhos do jeito que é. Eles são um presente na nossa vida, eles servem para a gente evoluir. É através deles que a gente pode ir melhorando. Então, eu gostaria de ser lembrada a mãe que muda a cabeça das mães, que faz elas aceitarem, sabe? Eu acho que a grande dificuldade é aceitar o que é. Aceita do jeito que é, que dói menos.
É isso que eu penso. Dói menos quando a gente aceita. E aí, quando a gente aceita e tem clareza da necessidade, a gente sabe melhor o que fazer.
E a grande complicação na cabeça das mães é essa. Elas não sabem o que fazer, mas elas querem algo mágico, algo que resolva, algo que solucione. E, na minha cabeça, isso acontece porque elas não aceitam.
Então, a palavra é mais aceitar do jeito que é. Sofre menos.
Bloco 7, que legado desejo deixar para as futuras gerações de médicos? Os médicos que eu ensino, eu gostaria de deixar a minha conexão 3D. É um método que eu desenvolvi pela necessidade dos alunos que passam nos estágios comigo. São alunos dos últimos anos de medicina, que a gente chama de internato.
E eles passam um estágio de seis semanas comigo, só atendendo adolescente. Nesses seis encontros, eu ensino como atender o adolescente. Eu desenvolvi essa técnica que chama conexão 3D, de descoberta, diálogo e direcionamento.
Eu gostaria muito que essa técnica fosse difundida Brasil afora, mundo afora, para que a gente pudesse atender melhor os adolescentes e fazer diferença na vida deles. Eu acho que todo médico tem que saber das grandes áreas. Todo médico tem que ter uma noção de criança, uma noção de idoso.
E eu gostaria muito que tivesse a noção de adolescente, o que não é a realidade hoje. Se dá muita atenção para as crianças, muita atenção para os idosos, por exemplo, para a saúde da mulher, mas o adolescente ainda é deixado de lado. E é uma população, é uma fase da nossa vida do ser humano mais vulnerável.
E que mais a gente pode transformar, mais a gente pode influenciar se a gente dá os estímulos adequados. Então, acho que a gente perde um momento precioso do desenvolvimento do ser humano quando a gente não dá atenção para essa população. E existe algo que ainda sonha realizar profissionalmente? Sim, eu gostaria de difundir, de dar essa palestra ensinando como se conectar, como atender o adolescente para vários profissionais de todos os âmbitos, não só os médicos, mas terapeutas, todo profissional, enfermeiras que acolhem na UBS, por exemplo.
Queria que fosse difundido, para a gente atender em massa os adolescentes, não deixar mais, hoje em dia eles não procuram assistência médica, eles não têm acesso à assistência qualquer que seja ela. E mesmo nível particular, as mães levam em nutricionista, levam em psicólogo, mas desconhecem a existência da medicina do adolescente. E eu sonho em realizar as oficinas com as mães, eu sei que isso é possível, mas eu gostaria que a gente pudesse fazer isso em vários lugares do mundo, as oficinas conectando mães e filhos adolescentes.
Bloco 7, o que ainda te move todos os dias? Acreditar que a gente pode fazer diferente. Eu acredito, eu tenho esperança de que a gente pode mudar a cabeça das pessoas, que a gente pode ter abertura para diálogo, para conversa. A gente pode mudar a realidade.
Eu levanto todos os dias para vir trabalhar, para exercer minha profissão, porque eu ainda acredito nisso. Eu acho que vou morrer acreditando que a gente pode transformar as pessoas para melhor.
Bloco 8. Quem é você além da médica? Nossa, sou muito mais do que só a médica, sou mulher, sou mãe, sou esposa, sou filha. Eu sou uma pessoa que acredita que o cuidado cura e que o cuidado mais transformador começa dentro da gente. Então, é buscar me desenvolver, me entregar para que realmente aquilo que eu gosto de fazer na vida, isso pra mim é ser verdadeira inteira comigo mesma.
Então, eu sou essa mulher que acredita na cura das pessoas, do mundo, através do autoconhecimento, que a gente precisa a cada dia se desenvolver mais, e eu sou essa mulher que fez da minha história um espaço de aprendizado e de ajuda para os outros.
Bloco oito, o que Florianópolis representa emocionalmente na minha vida. Florianópolis é o lugar onde eu me desenvolvi, onde eu vivi o meu trauma, mas onde o meu espírito, a minha alma, também conseguiu encontrar o seu caminho, vamos dizer assim. É a cidade onde eu fui amadurecendo, onde eu fui mãe, onde eu fui desenvolver a minha profissão.
E principalmente porque é uma ilha cercada por mar, e eu me sinto muito bem no mar, eu tenho uma ligação muito forte com o mar, me sinto bem, em paz, como se eu fizesse parte de um todo. Me sinto inteira nesse lugar. É isso que Florianópolis representa na minha vida.
Bloco 8, onde você encontra a paz hoje? No mar, porque é lá onde eu consigo me desconectar, relaxar, acabar com o meu diálogo interno, parar de ficar com pensamentos e simplesmente curtir o momento presente, o barulho do mar, as ondas, o vento, a areia, é um estado de presença, realmente, de estar no aqui e agora, e é nesse ambiente que eu me sinto em paz.
Bloco 8. O que o tempo te ensinou sobre felicidade? Que felicidade não é a gente ter tudo resolvido, ter tudo que quer, adquirir coisas, e sim viver cada momento como se ele fosse único. Isso pra mim é felicidade, é curtir cada momento. E existe algo que a minha maturidade tornou mais leve, não se sentir culpada ou preocupada com o que os outros vão falar sobre mim.
Eu acho que a gente não precisa dar bola para o que os outros falam da gente, quando a gente é a gente mesmo, é verdadeiro com aquilo que eu penso, que eu sinto, que eu faço, quando eu tô com isso alinhado, eu não me importo com o que os outros falam, e aí eu acho que é mais leve a gente levar a vida assim, se sentir livre para ser quem se é, sem se preocupar com os outros. Isso é o que traz leveza para a nossa vida.
Bloco oito, o que você desaprendeu ao longo da vida? Eu desaprendi a ser perfeita, achar que a gente tem que sempre fazer tudo certo, isso, eu tinha transtorno de ansiedade social, então o perfeccionismo era algo que me atrapalhava muito e quando jovem eu tinha isso, muito forte, e à medida que eu fui amadurecendo eu desaprendi isso e foi ótimo, deixar de ser teimosa, querer ter razão, eu acho que a gente não precisa ter razão em tudo, exatamente precisa estar aberta às diferenças, ouvir o que os outros têm para falar e acho que eu fui aprendendo isso, então desaprendi a ser teimosa e ser perfeita, entender que isso não existe. Quais os valores que eu fiz questão de transmitir para as minhas filhas? Acho que pensar sobre as coisas de forma crítica, ter a sua própria opinião, não ser Maria vai com as outras, vamos dizer, acho que é uma coisa que eu tinha uma grande preocupação com elas, ser honesta com o que você deseja, com você mesma, ser verdadeira, acho que esses são valores que eu gosto de deixar para elas e que faz parte da vida errar, faz parte da vida errar, tem nenhum problema a gente errar, porque é errando que a gente aprende, então saber confiar no outro para te ajudar quando você erra, ter a oportunidade de aprender com os seus erros, isso eu acho que são valores que a gente não pode deixar de lado, o respeito às diferenças de que cada um é, respeito como cada um é, acho que isso que é o mais importante, cada um tem o seu jeito de ser e aceitar esse jeito de cada um é o maior valor eu acho que a gente pode ter na vida.
Bloco 8. O que significa sucesso para você hoje? Sucesso para mim hoje é estar no lugar certo, fazendo o que me dá sentido. Sentir que eu estou no lugar onde eu escolhi estar, fazendo o que me dá sentido na vida. Isso é sucesso.
É a liberdade de escolher trabalhar com o que eu gosto, de estar nos lugares onde eu quero estar, com as companhias que eu desejo, não precisar me submeter a trabalhos que eu não gosto. É a sensação de me sentir realizada com o que eu faço. E existe algo que ainda deseja viver pessoalmente? Ah, eu quero viver muito ainda, viver muitas coisas.
Eu gostaria de escrever um livro, que eu já tenho até o nome, o título, que é ao invés do ponto, use a vírgula. É o nome do livro, o título, ao invés do ponto, use a vírgula. Para falar, para como que a gente conversa com o adolescente, das coisas da adolescência, enfim, eu gostaria de morrer depois que eu conseguisse escrever esse livro.
Eu quero ter mais tempo para viajar, eu gosto muito de viajar, conhecer lugares novos. E agora que as meninas estão, já estão, as meninas, as adultas jovens, as minhas jovens mulheres já estão na faculdade. E a gente pode escolher quando viajar.
Antes era sempre só nas férias, agora dá para ter mais alternativas, vamos dizer assim, porque elas podem recuperar na faculdade, enfim. Desejo ter saúde no meu envelhecimento e estou nesse caminho, cuidando da alimentação, da atividade física, não quero ser uma velhinha de cadeira de rodas, nada disso. E eu sei que cada atitude de hoje vai levar para o final, né, de uma vida com maior qualidade.
Então, eu quero sentir que eu vivi bem a minha vida e eu sempre falo para elas, para minhas filhas, principalmente, que se eu morresse hoje, eu já morreria feliz, né, porque eu vivi a minha vida intensamente, realizei as coisas que eu queria, apesar de ter muita coisa que eu quero fazer ainda, mas eu me sinto feliz com a vida que eu tenho realizada. Então, eu sempre acho que a gente tem que estar sonhando, desejando, né, coisas para a nossa vida, mas já me sinto satisfeita com o que eu vivi.
Bloco 8, em quais momentos você se sente mais inteira? Eu me sinto inteira em vários momentos, por exemplo, quando eu faço natação e eu tô naquela água, eu me sinto conectada a ela, quando eu tô tomando banho no mar, quando eu tô debaixo de uma árvore e sinto o vento tocando no meu rosto. Eu me sinto inteira quando eu tô com a minha filha deitada vendo uma série e ela vem se aconchegar em mim. Eu me sinto inteira quando eu tô fazendo uma trança no cabelo da Bia.
Eu me sinto inteira quando eu tô com o Cláudio nos momentos íntimos. Eu me sinto inteira em vários momentos da minha vida, mas é isso. Quando eu tô em silêncio, lendo um livro, é muito bom esses momentos.
E o que ainda te emociona profundamente? Eu ainda me emociono profundamente quando eu vou num show, ouvi um show de música, por exemplo, quando eu presto atenção em letras de músicas românticas que falam do amor entre as pessoas. Eu me emociono quando eu vejo a solidariedade das pessoas, a generosidade de uma pessoa com a outra, quando eu recebo alguma coisa sem estar esperando. Eu me emociono por coisas simples de alguém, até dentro da minha própria casa, alguém vir e me dar um... fazer alguma coisa.
Atos de serviço é uma forma que eu me sinto amada. Então, quando alguém faz alguma coisa por mim sem que eu pedi, isso me emociona profundamente. Quando eu tenho um aluno que vem e me agradece pelo aprendizado que recebeu, ou que me dá um feedback.
Um aluno que já passou por mim e vem e me diz, professora, tô sentindo sua falta, porque eu senti que eu mudei a vida dele, que eu transformei, que eu ajudei ele a aprender. Então, tudo isso me emociona ainda.
Bloco 8. Você acredita que envelhecer trouxe liberdade? Sim, eu acho que a liberdade é algo que a gente sente quando a gente se sente dona de si. Pode fazer o que quer, quando quer, e fazer as suas escolhas sem que ninguém influencie nela, sem que precisa ter a decisão de alguém. Envelhecer te dá muito isso, ter autonomia, independência, ser dona do próprio nariz, vamos dizer assim.
E claro, a gente tem as consequências de envelhecer. Eu sinto algumas limitações do meu corpo já, mas eu tento vencê-las, eu tento cuidar disso. Então, minhas rugas, meus cabelos brancos, a minha história.
Eu sou um pouco vaidosa, gosto de, se eu pudesse, eu faria alguma cirurgia, por exemplo, plástica. Mas não é algo que me faz mobilizar tanto, não viver a velhice. A minha filha que brinca e fala pra mim, mãe, que bom que você tá em ver com as marcas da velhice, porque assim, você tá viva, né? E eu concordo, a gente tá... Envelhecer é bom porque a gente continua vivo, podendo estar aqui nessa festa da vida, cada dia revivendo um pouco mais, um dia por vez, e isso é libertador.
Então, eu realmente acho que envelhecer traz liberdade pra gente, porque você dá mais valor, né? Dá mais valor pra quem você é. A gente dá mais valor pra quem a gente é. E só isso já tá bom, já tá bom. Ser quem se é já tá bom, faz parte da gente estar vivo.
Bloco 8, o que gostaria de dizer para mulheres que estão atravessando a maternidade e a carreira ao mesmo tempo. Como pediatra, eu sempre digo assim, se você pode priorizar os primeiros anos de vida, pelo menos o primeiro ano de vida do seu filho, em relação à sua carreira, faça isso. Não precisa ser de forma integral, abandonar a carreira 100%, mas dá um jeito de dar uma desacelerada, por exemplo.
Eu acho que o seu filho vai ter muitos ganhos com isso, inclusive você na relação com o vínculo, com o vínculo com o seu filho, a maternidade. Acho que, eu gosto de dizer assim, a gente só vai escolher ter um, dois, três filhos na vida, e a gente vive, sei lá, 80, 90 anos. São 3 anos dos 90 anos que você está se dedicando ao filho.
Então, prioriza isso nesse momento. E o outro, claro, na adolescência, que é um momento que a gente precisa estar muito presente. Mas, e por quê? Porque o filho, ele vai ver a sua presença, o quanto você estava sendo presente, e não precisa ser o tempo inteiro.
Basta que você tenha um tempo de qualidade, e esse tempo de qualidade pode ser que seja 10, 15 minutinhos do seu dia. Então, dá pra conciliar a sua carreira com ser presente na maternidade, com priorizar momentos de escuta com o seu filho, a sua filha. Então, não é preciso abandonar a carreira, mas é preciso ter tempo de qualidade.
E esse tempo de qualidade não significa que você precisa ser uma mãe perfeita, muito pelo contrário. Porque antes de ser mãe, a gente é mulher, e tá tudo bem ter os nossos sonhos, o nosso cuidado com a gente mesma. Mas, reserve pelo menos 10, 15 minutos do seu tempo pro seu filho adolescente.
Um tempo de qualidade, onde você se sente totalmente presente, sem preocupação na cabeça, sem estar pensando no que você precisa fazer. E se não der pra ser todo dia, que seja pelo menos umas três vezes na semana, né? Porque aí, hoje em dia, as mulheres estão aí sempre, sempre um monte de coisas pra fazer. Mas reserva na sua agenda, nem que seja lá 15 minutinhos, segunda, quarta e sexta.
Põe um pouquinho no final de semana, pra estar presente na vida do seu filho adolescente.
Bloco 8. O que gostaria que suas filhas lembrassem sobre você no futuro? Eu gostaria que elas lembrassem que foram amadas, que foram intensamente amadas e desejadas por mim e que eu fui muito feliz, não só por tê-las, mas porque a minha vida teve uma dimensão maior do amor que eu não sabia que existia e que eu senti através delas. Que eu errei sim, errei muitas vezes, mas que eu soube pedir desculpa e que eu estava ali presente genuinamente quando elas precisaram de mim e eu tentei ser o meu melhor a cada dia para elas.
Bloco 8. Quando olha pra sua trajetória, do que sente mais orgulho? Eu sinto mais orgulho de eu nunca ter desistido e sempre continuado. Sempre que eu ponho algo na minha cabeça e me determino, eu vou atrás daquilo, eu realizo. Eu não me permito desistir.
E eu me orgulho disso. Orgulho de eu conseguir construir o que eu construí no meu caminho, de ter transformado a minha dor em força, de não ter ficado me vitimizando, inconformada e de ter lutado contra a tristeza, contra a depressão, de ter buscado viver intensamente tudo o que eu vivi, sem medo dos julgamentos das outras pessoas. Me orgulho das mães que passam pelo meu caminho e reconhecem o quanto eu consegui ajudá-las.
Me orgulho das mudanças que eu pude oferecer, ajudar, estimular os adolescentes que passam consulta comigo, de ter hábitos saudáveis nas vidas deles, porque poucos médicos conseguem isso e eu consigo isso numa fase da vida tão difícil. Então, eu me orgulho de voltar um adolescente pra mim, por exemplo, e dizer que tá comendo fruta, que tá fazendo exercício, que tá dormindo melhor, que começou a ler um livro. Eu me orgulho dessas pequenas coisas, mas me deixa muito orgulhosa.
Existe alguma dor que se transformou em força? Sim, eu tive uma grande dor de me sentir envergonhada, como se eu fosse culpada do abuso que eu sofri, mas eu consegui me livrar dessas angústias, vamos dizer assim, transformá-las numa sensibilidade que talvez eu não tivesse se eu não tivesse passado por essas experiências. Reconheço tudo o que eu vivi, toda a dor.
Bloco 8. O que a vida te ensinou sobre amor? Nossa, a palavra amor é um debate, né? Eu penso assim, quando a gente vai tentar definir, passa milhões de coisas na cabeça. Mas eu acho que a gente ama realmente, verdadeiramente, quando a gente aceita as diferenças. Quando a gente aceita o outro do jeito que ele é e não como eu quero que ele me agrade.
E isso para todo tipo de relacionamento, tanto de mãe para filho, entre casal, entre outras relações, né? Aceitar o outro do jeito que ele é e é claro que amar não é não ter conflito, é a capacidade da gente conseguir superar os conflitos e mesmo assim estar ali junto, estar apoiando, estar acolhendo. Isso é um amor que eu acho que é mais maduro. E principalmente quando a gente não quer que o outro supra as necessidades nossas, né? A gente precisa ser inteiro para estar com o outro, amando realmente.
Então por isso a gente precisa se amar em primeiro lugar. E se amar em primeiro lugar não é uma tarefa que a gente aprende um dia para o outro. É um caminhada, uma trajetória, uma jornada, uma vida inteira, né? Para a gente olhar para dentro da gente, se amar verdadeiramente, daí você está inteiro para amar as outras pessoas.
Para mim é isso que o amor ensinou. Ame o outro do jeito que ele é, simples assim, do jeitinho que cada um é. Isso para mim é amor e acho que é uma tarefa a ser desenvolvida, porque não é algo fácil de ser conquistado, né? Mas eu tento me basear por aí, nos dias de hoje, principalmente, né? Mesmo que eu não estou nos momentos de maior relacionamento, por exemplo, conturbado, com conflito. Mesmo nesses momentos, quando a gente está em crise, eu tento levar isso dentro de mim.
Amar de verdade é amar as diferenças no outro, é amar ele do jeito que ele é.
Bloco oito, e sobre vulnerabilidade, o que a vida te ensinou sobre vulnerabilidade. Eu sou uma pessoa que vivi lá com transtorno de ansiedade social, então perfeccionismo, então mostrar a minha vulnerabilidade, aceitar os meus erros, receber críticas por causa dos erros era algo muito difícil pra mim. E eu via como algo ruim, como uma fraqueza.
E hoje eu entendo que muito pelo contrário. Quando eu tô diante de uma consulta, onde eu não sei alguma coisa, eu não tenho problema nenhum em dizer, olha, eu não sei sobre isso, eu vou pesquisar, eu vou olhar mais, eu não me sinto menos por isso, inferior. Eu consigo dizer assim mesmo que eu sou, eu tenho essa dificuldade, eu tenho esse problema, quando eu tô num relacionamento com alguém, eu consigo dizer pras minhas filhas, eu errei, peço desculpas.
Então eu não vejo nenhum... Eu acho que o grande desafio é a gente conseguir rir dos nossos imperfeições. Rir da gente mesmo. Quando a gente consegue chegar nesse nível de rir da gente, é porque a gente tá melhorando.
Tamo chegando no ponto, vamos dizer assim, tão no ponto bom da coisa. Então nem pra mais, nem pra menos. Então eu acho que ser vulnerável é algo importante.
E mesmo que eu tenha tido dificuldade nisso, eu levei bastante tempo pra conseguir me mostrar vulnerável. Mas hoje eu acho que eu já conquistei um pouquinho disso. E o que gostaria de deixar registrado para as próximas gerações? Eu acho que eu vou nessa mesma linha, né? Que a gente quer errar, eu vejo muitos meus alunos jovens, eles têm muita dificuldade de errar, eu acho que quando a gente erra isso não desqualifica ninguém, não deixa ninguém sendo menos, muito pelo contrário, a gente quer aprender as coisas, a gente precisa fazer e errar, fazer e errar, fazer e errar, porque é treinando, treinando, treinando que a gente vai melhorando.
Então outra coisa que eu diria é que a gente precisa cuidar da gente mesmo, então se priorizar, saber cuidar do seu tempo, organizar o seu tempo pra poder cuidar de si. E ser mais gentil com as pessoas, o mundo tá precisando um pouco mais disso, da gente tratar o outro com mais gentileza, com mais generosidade, a forma de falar, isso é uma luta que eu vivo dentro da minha casa, às vezes as minhas filhas estão brigando, eu falo, poxa, dá pra gente pensar, né? Vamos pensar antes de falar, vai se acalmar antes de brigar, de ofender, acho que é um exercício do dia a dia, a gente ser mais gentil um com o outro.
Bloco oito, como gostaria de ser lembrada? Eu gostaria de ser lembrada como uma pessoa que, sempre que eu vou a festas, coisas assim, eu faço discurso, eu gosto de falar para as pessoas, de organizar um discurso no sentido de poder falar o que realmente eu sinto por elas, o que aquele momento representa, então eu já sou conhecida como, vai ter discurso, vai ter discurso, as pessoas até esperam, então quando eu não preparo um discurso eu tenho que improvisar, porque já me pedem, e apesar de me achar assim, eu tenho um pouco de dificuldade, eu me sinto uma pessoa ainda com um pouco de timidez, mas ao mesmo tempo eu gosto, eu enfrento essa timidez e eu gosto de falar para as pessoas, verdadeiramente trazer para o momento, é uma festa, mas trazer esse momento para a gente reconhecer, dar valor àquela história, àquela festa que a gente está celebrando, então gostaria de ser lembrada como a pessoa que fazia os discursos e que trazia a emoção, o afeto, o amor para aquele momento, e para as minhas filhas gostaria que elas lembrassem o quanto elas foram amadas, se são amadas, de forma intensa, para os meus pacientes que eu fiz o meu melhor e que eles foram vistos, se sentiram acolhidos, para as mães que elas pudessem ter uma maternidade com mais leveza e com apoio, não se sentindo sozinhas, é assim que eu gostaria de ser lembrada.
Bloco 9. Quais são os três livros que mais marcaram sua vida? Na minha adolescência, eu li o Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída. Foi muito impactante para mim. Depois, A Coragem de Ser Imperfeito.
E Vínculo Conjugal na Análise Psicodramática e Diagnóstico Estrutural dos Casamentos, do Vitor Silva Dias. São livros que me marcaram e também que mudaram um pouco a minha forma de ver as coisas. Christiane F., eu estava adolescente quando eu li, achei muito impactante a realidade dela, foi alguma coisa que mexeu bastante comigo.
A Coragem de Ser Imperfeito, da Brené Brown, foi agora mais adulta, mas, mesmo assim, eu achei um livro bastante denso, difícil de conseguir captar todas as mensagens. Um livro que precisa ler mais de uma vez, na minha visão, ficar relendo. E o Vínculo Conjugal na Análise Psicodramática é um livro que mudou a minha forma de ver as relações.
É um livro técnico, vamos dizer assim, do psicodrama, mas explica muito como que a gente estabelece os vínculos afetivos. Então foram esses três que marcaram bastante a minha vida.
Bloco 9. Existe algum livro que você releia em diferentes fases da vida? Sim, na verdade tem dois, né, que eu vivo releindo, que é Cinco Linguagens do Amor, do Gary Chapman, e a Comunicação Não Violenta, CNV, do Marshall Rosenberg. Esses livros eu leio com frequência, gosto de rever, acho que a mensagem, não me identifico tanto com o autor, mas com o que ele escreve, né. Enfim, são esses dois.
Bloco 9, qual personagem literário você sente que te representa em algum aspecto? Na juventude, eu falaria personagem a Cinderela. Eu acreditava no amor que chegava e salvava, nesse encanto externo. E hoje eu acredito que eu me represento mais pelo Sherlock Holmes, que é um detetive, e acho que a minha profissão é muito disso.
É ser detetive, olhar o que está por trás das pistas, o que está querendo ser dito, conectar as histórias. A Cinderela esperava ser vista, o Sherlock Holmes busca as pistas e enxerga, e vê. Eu me identifico mais como um detetive atualmente.
Bloco 9, existem autores que acompanharam sua trajetória pessoal ou profissional? Sim, eu me identifico bastante com a terapia ACT, terapia de aceitação e comportamento, e o poder do hábito, que são livros que esses autores não me deram respostas prontas, mas coisas para eu questionar, para me melhorar. Que tipo de leitura mais te emociona hoje? A leitura que mais me emocionou hoje, na verdade, eu não leio muita coisa que me emociona, eu leio mais coisas técnicas, mas eu gosto de estudar muito parte de livros de neurociência, como que o nosso cérebro funciona. Minhas filhas até riem de mim, mãe, tu não lê coisa mais leve? É, eu não leio coisa que me emociona não, eu acho que eu vejo mais filmes que me emocionam, eu gosto de ler coisas mais técnicas da realidade, onde eu vou aprender.
Então, eu tenho lido É Assim Que Pensamos, do John Brockman, e É Assim Que Aprendemos, e eu li o último, penúltimo, Foi o Verdadeiro Criador de Tudo, do Miguel Nicolelis. Então, tudo que envolve muito a ciência, a neurociência em si, a descoberta de como o nosso cérebro funciona. Então, são essas coisas que eu leio.
Bloco 9, quais são as três personalidades vivas ou não que você mais admira? Eu prefiro falar das vivas e a Greta, essa adolescente que começou, é Thunberg, eu sou ruim de nomes, de gravar nome, nossa, para eu me lembrar foi difícil, precisei pesquisar, mas deve ser por causa do processamento auditivo. Mas a Greta, ela é uma jovem que luta para mudar o mundo, ela foi falar do clima, ela foi defender o ponto de vista dela, quando muitas pessoas ficam quietas, em silêncio, ela conseguiu protestar, eu acho que ela é um exemplo, se nós estivéssemos muito mais jovens que nem ela, acho que a gente conseguiria realmente mudar as coisas. Outra pessoa, um influencer, eu acho que ele me chamou bastante atenção é o Felca, ele teve a ousadia de levar adiante a denúncia dos abusos, e por conta disso o Eca Digital saiu do papel, quer dizer, está no papel, mas enfim, entrou em vigor, e isso eu já acho que é uma grande conquista.
E a terceira pessoa seria a Kátia Damasceno, que é uma sexóloga, que fala para adultos, mas ela tem uma grande sensibilidade para falar da sexualidade, mostrar que ela não é só o ato sexual em si, mas que faz parte da pessoa como um todo, faz parte das relações afetivas e sexuais, então são essas três pessoas, cada uma à sua maneira, que me lembram que ser autêntico é um ato de coragem, e a gente precisa ter coragem para ser autêntico.
Bloco 9. Existe alguma mulher que tenha servido como modelo para a sua trajetória? Existem muitas mulheres na minha vida que serviram como modelo para mim, mas dentro da medicina do adolescente eu vou citar a doutora Lígia de Fátima Nóbrega Reato, que é uma referência na medicina do adolescente. Eu tenho uma mais antiga, mas eu não consegui me lembrar o nome dela, e que ela foi aquela pessoa que eu encontrei no congresso em Blumenau, e não está me vindo à mente, estou até assustada com a minha memória, mas não me veio o nome, mas tem essa outra mulher que também é médica de adolescente, e são exemplos na minha área, e com certeza elas serviram de modelo para mim. Você já teve algum mentor ou mentora muito importante na sua vida? Sim, eu tive o doutor Eric Arruda Schussel, ele foi meu mentor na medicina do adolescente, tanto na medicina em si, quanto na linha da psicoterapia.
Ele que me apresentou o psicodrama, eu fiz o curso com ele, foram três anos de curso, ele era o supervisor, depois ele também foi meu terapeuta, depois ele virou meu amigo, e foi até padrinho de casamento, vamos dizer assim. Então, foi uma pessoa, além de mentor, a gente se tornou amigo, e na época que eu me separei, ele também foi meio paisão, porque eu já fazia terapia com ele. Então, ele foi a pessoa que eu diria que me transformou, transformou o que eu era antes e a mulher que eu sou hoje, me ajuntou nessa caminhada.
Bloco 9. Quais qualidades humanas mais despertam sua admiração? A mais desperta minha admiração é a coragem da gente ser verdadeiro com a gente mesmo, né? Falar o que pensa, enfrentar mesmo que seja uma opinião diversa, a capacidade de a gente ouvir o outro sem julgar, eu acho que tentar não fazer o julgamento sempre tem dois lados da história no mínimo, né? E a gente aprender a ser mais compaixivo, né? Ter mais compaixão consigo mesma, a gente não ser tão duro, não ser tão duro com a gente. E principalmente as mães, né? As mães ficam sempre se culpando, se erram, então a gente ser mais carinhoso, mais amoroso com a gente mesmo, isso é a compaixão. E como eu já falei antes, acho que aprender a ser gentil, generoso com as pessoas, né? Acho que são qualidades humanas que a gente devia sempre preservar.
Existe alguém anônimo da vida cotidiana que ensinou muito sobre a humanidade? Eu acho que eu tive uma experiência com uma mãe que ela conseguiu mostrar a fragilidade dela, que ela estava tendo dificuldade de se relacionar com a filha, porque a filha queria mudar de nome, queria ter um nome masculino, e ela estava tendo muita dificuldade disso. E ela falou que às vezes a gente acredita que é a gente que precisa consertar os filhos, mas no fundo, no fundo não é nem a gente que precisa se consertar, mas é a forma de amar, né? Como que a gente ama o outro do jeito que ele é. Então essa frase, sim, dessa mãe, essa relação que ela conseguiu se aproximar da filha, me ensinou bastante, né? Que a gente pode romper barreiras entre mães e filhas, porque não é a falta de amor, mas sim uma rigidez que a gente tem para se atualizar mesmo, para evoluir.
Bloco 9, quais filmes mais marcaram sua vida? Querido Menino, um filme de um pai e um filho vencendo as drogas. Para Sempre Alice, eu acho que ele fala sobre o Alzheimer. O Silêncio dos Inocentes, foi um filme que eu vi ainda mais jovem.
E o Canibalismo, acho que a atuação do Anthony Hopkins é muito fenomenal, vamos dizer assim. E mais jovem ainda, o Exterminador do Futuro. Foi um filme que eu assisti milhões de vezes, que eu fiquei impressionada com essa coisa da ficção.
Eu gosto muito de ver filmes de ficção, de a gente ficar tentando vislumbrar como seria o futuro. Então, tudo que envolve filme de ficção é algo que marca muito a minha vida. Então, foram esses que eu posso nomear aqui, mas tem muitos outros.
Existe algum filme que você considera transformador emocionalmente? Para mim, desses, o Para Sempre Alice. Eu acho que o Alzheimer é uma doença muito triste, porque a gente fica de corpo presente, mas a nossa memória vai embora. É muito doloroso para quem fica aqui.
Eu acho que esse filme mexeu muito comigo. E acho que o que mais, apesar de doloroso que é a gente perder a memória, mas ver o quanto as pessoas que estão à nossa volta e que nos amam, fazem a diferença, o quanto o afeto é importante.
Bloco 9, que histórias mais te tocam no cinema? Eu gosto de histórias que mostram as relações humanas mesmo, as relações humanas, quando tem uma doença, um desafio para ser enfrentado e como as relações se refazem, sobre o silêncio do que não é dito e de repente você consegue superar isso e a verdade vir e a gente se aproximar. Histórias que transformam, que mudam a vida das pessoas, que quebram as nossas regras, nossas crenças internas. Você prefere filmes que fazem pensar, emocionar ou provocar? Eu prefiro mais aquele filme que a gente fica pensando, que a gente vê e que mexe tanto com a gente emocionalmente, que provoca tanto, que você fica pensando depois.
Aquele filme que faz você pensar em várias coisas, não é uma coisa de você só sentir no momento, mas aquele filme que te faz querer ver de novo, porque é tanta coisa que aconteceu nele que fez você pensar e você tem vontade de rever, sair do cinema para conversar com alguém, falar, você percebeu isso, percebeu aquilo e pensou sobre, um pensou de um jeito, o outro pensou do outro, aqueles finais que podem ter mais de um final, por exemplo. Eu gosto desses filmes que dão aquele incômodo de a gente ficar pensando, mas se fosse desse jeito o final? E se o final fosse assim? Eu gosto disso.
Bloco 9. Como você gosta de ocupar o tempo quando não está trabalhando? Bom, ultimamente eu tenho trabalhado muito nesses últimos cinco anos, né, mas quando eu tinha mais tempo ocioso, eu gosto de caminhar na praia, eu gosto de ficar lendo um livro, eu gosto de ficar sozinha, assim, eu gosto de ficar sozinha em casa, no hotel, na rede, escutando o barulho do vento, do mar, com meus gatos, eu gosto também de ficar com as minhas filhas em casa, sem fazer nada, a gente assistindo alguma coisa ou cozinhando, tudo isso eu gosto quando eu não estou trabalhando. Existe algum hobby que te reconecta consigo mesma? Eu gosto de andar de bicicleta, inclusive eu fiz 56 anos semana passada, dia 13 de maio, e eu me dei de presente uma parte, né, porque meu marido e minhas filhas me deram a outra parte, uma bicicleta nova, que a minha estava bem velha e com a maresia toda estragada. Então, eu gosto de andar de bicicleta, uma coisa que eu fazia já na minha adolescência, é algo que eu gosto muito, e onde eu moro dá pra fazer isso.
Então, isso é um hobby que me reconecta comigo mesma, é onde eu consigo ficar em paz, em silêncio da mente e pedalar me faz bem.
Bloco 9. Você pratica algum esporte ou atividade física? Eu pratico, sempre pratiquei desde a minha juventude, mas atualmente eu já pratiquei natação, é uma coisa que eu gosto muito, mas atualmente eu tô praticando pilates e deixei a natação para ir para musculação, que é algo que o meu corpo necessita nesse momento da idade. Então, eu tô fazendo musculação duas vezes na semana e pilates duas vezes na semana. E agora que eu ganhei a bicicleta, me dei e também vou pedalar no final de semana.
É isso que eu pratico de atividade física. O movimento e o corpo tem importância emocional para você? Sim, eu acho que a gente se sente muito bem, a gente libera endorfinas, sente o corpo melhor, me sinto mais forte, como se eu tivesse me superando. E aí isso me dá uma boa autoestima, começo a me conectar melhor com o meu corpo, porque eu sou muito mental também.
Eu não tenho uma disciplina para o esporte, eu preciso me forçar a fazer atividade, não é uma coisa que eu vou assim, que maravilha, eu tenho que fazer, feliz da vida, mas eu me sinto muito bem emocionalmente depois que eu consigo vencer a minha inércia, minha preguiça e faço com regularidade. Então, eu pratico e tento manter isso. Então, nunca fico sedentária totalmente, porque me faz bem mentalmente.
Eu tenho uma tendência a sintomas depressivos por histórico familiar, já passei por momentos difíceis na minha vida, então eu sei o quanto a atividade física é importante para o meu emocional.
Bloco 9. O que te ajuda a desacelerar? Acho que eu já falei várias vezes, o mar. O mar me ajuda. Escutar o barulho das ondas do mar, ver o visual, tudo isso me ajuda a encontrar o meu estado de espírito em paz.
Mas eu também gosto de ler um bom livro, ficar lendo é uma coisa que me ajuda a desacelerar. Eu gosto, como falei, de ficar na rede, deitadona, sem fazer nada, só olhando para os passarinhos, voando, de ficar acariciando o meu gato e tudo isso me ajuda a desacelerar. Você gosta mais de silêncio, natureza, encontros ou movimento? Eu gosto de tudo, eu gosto de tudo, depende do meu estado de espírito.
Mas eu gosto sim de silêncio, eu prefiro silêncio do que barulho. Eu gosto da natureza, de botar o pé na areia, de sentir o barulho do mar, como eu já falei. Eu gosto de encontrar boas amigas, eu preservo isso.
Esse ano, inclusive, todo mês, meu grupo de amigas da faculdade tem um grupo de oito amigas junto comigo e a gente está priorizando esses momentos juntas da amizade, de um lugar onde você pode ser quem você é, sem se preocupar com o que você pode ou não falar, de você poder estar chateada e ser ouvida e não ser criticada. E gosto também do movimento, adoro a dança, adoro dançar, adoro, apesar de não ser muito assim coordenada, tem um pouco de dificuldade de coordenação, mas eu aprendo rápido, então eu gosto de dançar.
Bloco 9, aleluia, última resposta aqui, olha que trabalheira que foi tudo isso, é 205 a última resposta, como é um dia perfeito para você? Um dia perfeito para mim é quando eu acordo sem precisar me preocupar com o despertador, acordo espontaneamente, um café da manhã em família, eu adoro, a gente adora esses momentos de uma mesa farta com frutas, pão, geleia, enfim, com queijo, são bastante queijo, gostamos de queijos frios, então um baita de um café da manhã juntos em família, depois pode ser uma caminhadinha na praia com o solzinho, depois à tarde ler o livro, não gosto muito de cozinhar sozinha, então eu prefiro quando a gente cozinha juntos, então minhas filhas, a gente vai para a cozinha todo mundo, faz um almoço, prepara um almoço e terminar o dia vendo alguma coisa, um filme, gosto de ver filme em família também, a Bia não é muito de participar, ela gosta mais de ver séries sozinha, mas de ir no cinema ela gosta, então às vezes esse seria um dia perfeito, terminar o dia indo no cinema nós todos juntos, eu acho que essas coisas pequenas do dia a dia, estar junto, a presença um do outro, curtindo, mesmo que a gente discuta, tenha algum desacordo, não quero isso, quero aquilo, enfim, não é aquela coisa perfeita, mas o dia perfeito para mim seria esse, nesse dia a dia mesmo comum e rotineiro, esse é um dia perfeito, não precisa de muita coisa para ser um dia perfeito. Ah, e eu acrescentaria um bom banho de banheira e com massagem, acho que esse seria mais perfeito ainda, eu adoro isso, tomar um banho de banheira, fazer a massagem, depois ir para o banho, muito gostoso, a gente já fez isso uma vez em família, não sozinha, eu já fiz outras vezes sozinha, mas seria um dia muito bom. É que ultimamente também não tô com a minha libido muito alto por conta da menopausa, mas antigamente eu colocaria uma banheira e dar um motel.
É isso, um abraço e até que enfim terminei. Espero que façam bom uso de todo esse material. Beijo!
Bloco 9. Existe alguma cena de filme que nunca saiu da sua memória? A cena de filme que nunca saiu da minha memória? Meu Deus, são tantos, né? Mas eu acredito que... Reencontros, assim. Reencontros de longa data, assim. Quando a gente fica... Se separa, né? E depois cada um vai... Vive o seu momento, sua vida, as histórias se separam.
E depois, por algum motivo, você reencontra. Eu gosto muito de filme que tenha... Esses filmes que acontece isso, do reencontro. E que filme você acredita que todo adolescente, todo adolescente deveria assistir? Eu indico sempre, acho que, os filmes que a gente devia deixar o adolescente ver, até de tarefa de casa, seria Close.
Principalmente se tiver no início, assim, da adolescência. É um filme triste, mas é bem o momento que os garotos do filme estão vivendo. Azul é a cor mais quente, é um filme picante, sobre o amor de uma menina por outra menina.
Tem cenas mais sensuais, então já é pra uma fase mais avançada da adolescência. Me chame pelo seu nome, aí quando já está lá no final, mais maduro, mais perto de 19, 18 anos. E O Mínimo para Viver, que é uma garota adolescente com transtorno alimentar.
Que tem toda uma questão psicológica por trás da relação dela com a mãe. Todo transtorno alimentar tem transtornos psiquiátricos associados. E eu acho que se o adolescente assiste esses filmes, ele pode se identificar e pedir ajuda.
Porque todas essas questões, elas são vividas silenciosamente pelo adolescente. Dificilmente ele vai pedir ajuda, né? E o filme pode fazer com que eles busquem essa ajuda por se identificar com as histórias dos filmes.